"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho" - Mário Quintana
sexta-feira, 2 de maio de 2014
E, então, tornei-me rainha. Do dia para a noite. Com direito a louvor e a banquete. Vestiram-me com as vestes de um soberano. Deram-me posição e refúgio, um castelo que nunca vi (antes). Mas, antes que me encham de soberba, atribua a ela quem a merece. Não tinha ontem o lugar que tenho hoje. Mas quem me deu, o tinha. As joias preciosas foram postas em mim, como presente. Estão em minha posse hoje, mas sempre estiveram com outro. Toda glória está naquele que faz do guerreiro, um grande combatente. Tantos morrem sem chegar a completar o sonho, ou antes, se perdem no caminho pela tentação ou pela falta de fé. Forte é aquele que concede ao outro a força de conquistar um reino. Glorioso daquele que torna uma mulher, rainha. Uma criança, filho; um animal, companheiro; um papel, arte; um som, sinfonia. A glória maior é daqueles capazes de tornar seres humanos em homens de bem.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Hoje me lembrei da música do seu despertador. Não sei o nome, nem o
cantor, nem o idioma consigo definir com certeza. Mas, lembro dela, e poderia
reproduzi-la a meu modo. Era uma música bem desagradável de ser ouvida pela
manhã. Era bem incômoda e sem contexto. Nunca entendi a procedência ou
propósito daquela canção. Posso chutar que você tenha a conhecido por
acaso, num círculo de amigos, onde algum
pseudo-intelectual tenha citado o cantor
ou a própria música. E aí, teria sido apenas questão de tempo para que sua
curiosidade o tenha vencido e o induzido a pesquisar pela referida no google.
Do computador para o celular: um pulo. E lá estava ela, uma canção aleatória e
desconhecida soando a cada despertar mal despertado. Era a mim que ela fazia
levantar, o que me irritava profundamente. Você e sua mania de rolar na cama a
procura de mais 5 minutos de sono e piedade. Estranhamente, quem se atrasava
era eu, mesmo eu levantando antes. Você corria para o chuveiro, enquanto eu
sempre preferia comer antes de tomar banho. Aí me danava, porque você sempre
demorava tempo demais no chuveiro. A manhã te engolia. A prostração de cada dia.
Demora para acordar, demora para tomar uma ducha. Um ser noturno.
Diametralmente meu oposto. O coração da rua e da noite, obviamente não quis uma
mulher ás claras, exposta a luz do dia. As suas mulheres precisam ser prateadas
da luz da lua e não douradas da luz do sol. Tudo era sabido desde do princípio.
Ninguém jamais pode ir contra aquilo que está previsto pelo momento da vida em
que cada um está. A tentativa, mal sucedida, deixa apenas marcas de
desencontro. De pessoas que precisavam encontrar antes a si mesmas em si
mesmas. Antes, assumir as próprias vontades e expectativas. Encontrar-se.
Plenificar-se. Tarefa para, nada menos, do que uma vida inteira. Em separado.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Quando a encontro, só me fica um pensamento: não tenho nenhum controle sobre ela. Uma mulher, completamente independente, que tem vontade própria e toma suas próprias decisões. Acho que a mãe a criou assim, solta. Tenho mesmo essa mania de dar conselhos, de falar da vida e do que eu acho que é certo, que é bom.Com ela, não faço diferente. Quando me dou conta, estou a ensinando coisas que, no fim, percebo que ela só escuta por educação. E me sinto meio idiota por suspeitar que nada daquilo faça sentido a ela, são palavras vãs. Eu bem sei. E a olho nos olhos profundamente como se buscasse desesperadamente por sua alma, mas nada vejo. Fico desconcertado, ela pouco fala. Talvez porque eu falo demais e ela não ache espaço. Uma completa desconhecida. Minha filha não acha espaço em mim, seu próprio pai. A agonia de não saber quem ela é, me faz falar ainda mais. Quero ocupar o tempo. Não transpareço a ansiedade que sinto (que ela pensa, afinal?). E a confusão de não saber lidar com isso. Alguém que não vi crescer, que não vi tornar-se e me chegou pronta, assim desse jeito. Velho, sem grandes conquistas, e de menores expectativas. Me apego a minha experiência de vida para termos assunto, e professo do mundo que é meu. É quando me desperto para o fato de que ela não está nele e eu só posso estar no dela em ausência. É sempre assim. É certo que seu rosto e fisionomia guardam espelhos dos meus rosto e fisionomia. É certo que seus olhos me agoniam e me confortam, porque vejo alguns rabiscos de mim mesmo. Reconhecer traços de semelhança, me conforta e eu me dou a falsa impressão de que sei com quem estou lidando. Meu sangue. O olhar é recíproco, os olhos guardam a mesma cor. Debaixo da cor que eu lhes dei de herança, o segredo: quem é essa mulher? A única coisa que seus olhos deixam escapar, da verdade que são, é que há motivos. E a vida corre, sempre. Não saberemos nessa vida talvez. Há mais mistério no mundo do que somos capazes de compreender e, se as coisas estão assim é porque assim chegaram a ser. Não há porque revolver em terra infértil. É como está. É preciso deixar. É como é. Talvez numa próxima aja jeito de ser diferente. Não sabemos como foi, sabemos que estamos assim. E que meu convite para um sorvete nunca será aceito, e que meu telefone nunca receberá uma chamada dela. E eu, nunca saberei a data do seu nascimento.
Como se, por acaso, dos restos da maçã comida que eu joguei pelo chão, houvesse brotado uma macieira.O desenho das folhas e a qualidade dos frutos foram definidos pela genética óbvia. Mas, a direção que cresceram os seus galhos, o seu tamanho, sua generosidade ou pobreza frutífera, sua vistosidade, sua espessura e envergadura são únicos. E eu nada vi surgir, e eu nada tive de influencia, mérito ou culpa. Uma árvore que eu nunca reguei, que vingou por ela mesma. Dei-te tão pouco, mas foi o suficiente. Derradeiro. Não precisou mais do que de meus restos para nascer e ser o que é. De nada mais precisou - ou precisa - de mim.
Como se, por acaso, dos restos da maçã comida que eu joguei pelo chão, houvesse brotado uma macieira.O desenho das folhas e a qualidade dos frutos foram definidos pela genética óbvia. Mas, a direção que cresceram os seus galhos, o seu tamanho, sua generosidade ou pobreza frutífera, sua vistosidade, sua espessura e envergadura são únicos. E eu nada vi surgir, e eu nada tive de influencia, mérito ou culpa. Uma árvore que eu nunca reguei, que vingou por ela mesma. Dei-te tão pouco, mas foi o suficiente. Derradeiro. Não precisou mais do que de meus restos para nascer e ser o que é. De nada mais precisou - ou precisa - de mim.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Do quanto se pode falar de quem não se conhece? O quanto eu estou certa em minhas impressões? Seus olhos falam mais que a sua boca. Mais falam suas mãos. Sua boca em silêncio fala mais, quando me beija a testa. O jeito como você chega e encosta, me conta um pouco do que você quer. Acho que anda cansado. Cansado dos anos, cansado da espera, cansado de ser. Quer repousar. No meu colo encontrou maciez. Reciprocidade. Não sei, com precisão, qual parte da história você quer mudar, qual parte das incumbências quer abandonar e nem porque escolheu o caminho da luta. Não sei o que teria feito você ter vindo a mim. Sei que essa casca que você tem, não te faz mais parte. Sei que quer deixá-la para trás, mas não sabe como. E sei que as novas escolhas te fazem precisar dela. Tenho medo das suas novas escolhas, porque, humildemente, tenho uma versão de quem sejas. E ela contradiz tudo que todos dizem sobre você. Não sou mais ou menos do que todos os outros, sou apenas quem te acolhe sem a casca. Quem te vê sem a casca e te gosta sem ela. Na minha casa você entra e deixa a casca na porta, com os chinelos. Porque só na minha casa, você vem com chinelos. Tenho a sorte de ver a sua parte mais bonita. Não faço ideia dos motivos, da motivação e nem das reais intenções (suas e de Deus). Não sei que fez com que o caminho de um encontrasse o do outro. Sei que fui avisada da sua chegada, mas não prestei atenção as previsões. Sei que me encontrou em vantagem. Vantagem de estar sonhando acordada, andando em meio as flores, com o corpo quente de um coração em paz.
domingo, 13 de outubro de 2013
Menina, faça um pouco de silêncio porque quero lhe falar do que é obvio. Mas que nada tem de óbvio para você (ainda). És moça pura e tem o cheiro do leite dos seios de sua mãe. Seus olhinhos inocentes ainda não ganharam a amplitude dessa raposa velha que vos fala. Você me diz que viveu um amor verdadeiro e que seu coração nunca o esquecerá. Você se lamenta por não conseguir sentir, pelos novos que se aproximam, nada de parecido. E o cheiro de nenhum deles é tão agradável quanto era o do seu amado homem. E nenhum abraço é mais quente e nenhum te esquenta o peito. Também nenhum deles te olhou nos olhos com a sinceridade franca e doce dos que amam. Nenhum desses colos te deu o conforto de um lar. E nenhum conseguiu ver seu sorriso tão feliz como ele já foi. Vou te dizer, porque te gosto, e te gosto desde do primeiro dia. Te gosto como mãe, como pai e irmão. Te gosto como amiga mais velha. Te digo que o gelo que sente vem de dentro. Esfriou-se seu coração. E ele está tão gelado que esfria o calor do peito de quem te abraça. Tornou-se uma pessoa desconfiada e começas a duvidar que encontres ainda um substituto nessa vida para algo que foi tão significativo. Posso te dizer, querida amiga, que talvez não encontre. Posso te dizer, querida amiga, com toda certeza que esses anos de vida me deram, que nunca o esquecerá. E você sempre será o ser humano mais pleno desse mundo nessa sua doce lembrança de menina moça. Mais do que que foras, de fato, na presença do seu amado. A lembrança é sempre mais doce, porque o amor nos faz esquecer as partes amargas. Te direi mais. Seguiras congelada e sem esperanças por algum tempo. A quantidade de tempo, dependerá somente de você. Por isso, te digo, com ainda mais certeza: seu coração voltará a se aquecer. E te aconselho a abri-lo assim que puder. Não tenha pressa, mas não se acomode nessa neve. O frio é perigoso. Demais. Se ponha ao sol o quanto antes for possível.
domingo, 22 de setembro de 2013
Vapor quando desce é chuva
Hoje você fala em coisas que eu não consigo entender. É política dos grandes homens, que eu não acompanho. É discussão de algum fato que eu não fiquei sabendo. É de um mundo que não é meu. Hoje em dia, a distância é uma montanha russa, que só desce sem jamais subir. Um carrinho está solto nos trilhos, sem freio e sem segurança. É só de ida. Cada segundo a mais da descida torna mais impossível o retorno. Ingrime e veloz, desenfreada distância. Ninguém está no carrinho, nem eu nem você. Nós, só o empurramos. Talvez um tenha empurrado com mais força do que o outro, mas isso nem importa. O fato é que não (re)conheço mais quem mais amei na vida. Como não poderia deixar de ser. É das fatalidades de envelhecer. É das fatalidades que o tempo trás, no decorrer dos aniversários que fazemos. Das coisas que inevitavelmente ficam para trás e que de tão longe nem parece que foi com a gente, nem parece que era a gente que estava lá vivendo todas essas banalidades. Banalidades que eu nunca mais quero viver nessa vida, porque me decidi por algo mais meu. E ninguém se reconhece mais. Só se sabe do que há de ser feito na segunda de manhã. Nada mais. E se me dizia que amor não era, te digo que nem o que você pensou que fosse é mais. É antes, o contrário disso: distância.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
É que quando chega a hora da foto, todo mundo sorri
Eu odeio escrever. Odeio. Porque quando escrevo me revelo toda e aí sou obrigada a olhar para o que eu sou. Essas linhas tortas. Fico de frete para toda dor que eu carrego dentro da alma. E todos ficam sabendo: do quanto a vida me dói no peito, do quanto eu me sinto só, ou do quanto eu choro. Dificilmente eu conto do quanto eu sorrio. Eu sorrio o tempo todo. Sou agradável na maior parte do tempo e com a maior parte das pessoas. Só os íntimos sabem do meu turbilhão. Sei que firo gravemente um dos mandamentos da lei divina que proferem os homens: "honrar pai e mãe". Sou má filha, sou má irmã e má neta. Porque sou amarga com as pessoas íntimas (apesar de que quem mais me conheceu na vida, me ache doce... deve ter problemas gustativos). É sem maldade. É porque perco a paciência com a existência e porque me é custoso existir, mais do que para a maioria, eu diria. E nada é mais íntimo a mim do que essas linhas tortas. Não sei porque teimo e volto para essa página em branco e a transformo num mundo de inquietude. Tenho tido dias alegres e em companhia de pessoas boas, de coração bom, e por isso tenho escrito pouco. Porque me é difícil falar de alegrias. Eu tento e as vezes me dou bem. Acho que é porque a alegria se basta e não carece de versos. Ou é porque ela me ocupa tanto que esqueço de ser triste e esqueço de escrever, minha triste escrita. É certo também que escrever me alivia. Não é apenas uma revelação das minhas tormentas. Quando eu escrevo, te dou minhas tormentas. Passo a bola. E leve para você, logo, que já está demais. Faça delas o que bem ou mal entender. Como já estou confusa agora e escrevo num momento de alto choque, sei que corro sérios riscos de me perder e não chegar a lugar nenhum. Já sinto que estou sendo anestesiada por minhas defesas. Aprendi com o tempo, desenvolver um estado de paralisia diante de coisas muito graves. Já me aconteceram algumas. Ou talvez não tenham sido e na verdade seja mania minha de sentir muito por pouca coisa. Toda dolorida a pobre moça. De corpo e alma. Não sei se os bons dias irão se tornar tendência. Não sei se vivo a dor ou corro dela. Não sei onde me sinto mais viva. Não saberia dizer em qual sou mais representada. Não sei. E já começo a perder o sentido. É o choque. De que jamais irei falar - por conta da minha defesa. Vou me limitar a isso.
sábado, 27 de julho de 2013
Te procurei a noite para te dar a mão. Mais uma vez, te direi das cores que vi no céu. Viajei até o outro lado do rio de canoa com os amigos de Amanda. Tenho orgulho. Sinto um aperto de saudade cada vez que ela me olha nos olhos com a sinceridade que só você era capaz de me fazer sentir. Os olhos muito pretinhos. Não sei se é isso, se é o preto. Nunca pude entender e nem descrever com precisão o que é que tinham seus olhos. Você tinha olhos que embaçam. Olhos enuveados, eu diria. É essa a sensação. Talvez seja. Sempre ouve algo na frente do seu olhar. Era como se nunca tivesse visto seu olho de verdade, sempre escondido por detrás. Talvez a sinceridade fosse, então, da nuvem. Olhos nublados, sempre nublados. Mas que nunca choviam. Esses olhos teus. Nunca choviam. Como os dela não chovem. Não há porosidade nessa nuvem. Ela só guarda, mas não escorre. Guarda toda a água com ela, e não nouardou? Te amo tanto. Quando te vi de olhos fechados, dentro do caixão, senti tanta falta. Falta dos seus olhos, falta da nuvem. Queria ter visto seus olhos por uma última vez. Só fui encontrar semelhante algodão nos olhos de nossa filha. Ela, que nunca pode guardar uma lembrança sua em sua pequena memória de menina, mas guardou tantas semelhanças com você que parece até invenção de minha cabeça. E não é. Claro que ninguém vai perceber o que eu percebo. Ninguém te conhecia como eu. Ninguém a conhece como eu. Um dia não terei mais esse conhecimento, sei que os filhos crescem e se vão. E se tornam distantes e se aproximam de outras pessoas e a gente acaba perdendo o jeito sobre eles. Tem dias que eu a aperto contra o peito e sinto o seu abraço. Ela sorri. Ela sabe. De alguma forma, ela sabe que o verdadeiro motivo do meu abraço nesses dias é matar a saudade que sinto de você. E ela também sabe o quanto tem de ti. Esses dias me disseram que deveria me preocupar com a amizade que ela tem com a Luciana. Que é preocupante que duas meninas andem tão juntas e que tal atitude não pode ser boa para o caráter. Sei que você se preocuparia tão pouco quanto eu. Elas formam um belo casal, e se entendem tão bem, e vivem sorrindo e descobrindo a vida juntas. Que mal pode ter? Ela saiu mesmo à gente, ao nosso amor. Pura, de coração inflado, sorriso largo, olhos de nuvem. De nuvem no céu, céu de estrelas. Olhos de luar, olhos de lua cheia, olhos nublados. Quantos olhos tem nossa filha, quantos céus traz na alma. Ela é linda. "Digna de ser amada", como quisemos nós. Um sonho nosso, meu e seu. Um sonho vivo que corre pelo mato descalça e toma banha de rio e banho de sol. Sempre magrela, sempre douradinha, sempre com a Luciana. Quem dera ter te conhecido assim tão jovem como ela conheceu Luciana. Teríamos conseguido aproveitar mais. Mas, sei que ainda temos todo tempo desse mundo e de todos os outros. E que esperas tanto por esse dia quanto eu.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Hoje eu acordei de sobressalto, assutada com o meu próprio nome. M-A-R-A. Nome estranho. Palavra mais sem pé nem cabeça. M-A-R-A. Tinha a Mara Maravilha, mas assim fazia sentido. O "Maravilha" tornava a "Mara" alguma coisa. Uma coisa maravilhosa aliás. Mas eu era Mara, só Mara. Se ao menos eu fosse Mara Leite, já seria menos pior. Tipo marca de leite, o leite Mara. Seria melhor. Mas sou Mara Souza. Sobrenome só da mãe. Se tivesse "i" faria sentido, e eu me chamaria Maria, com "i". Porque Maria, foi a mãe de Jesus e só por isso teria sentido. "Maria" por sí só não tem sentido. Se a mãe de Jesus fosse "Clara" ao invés de "Maria", "Maria" não teria sentido algum e seria igual a "Mara". Nomes próprios não tem sentido nenhum, a exceção dos santificados e dos que homenageiam celebridades e pessoas da família. Por exemplo, estudei com uma menina chamada Madonna. Não por causa da cantora, mas por causa de um quadro. O nome dela fazia sentido porque representava alguma coisa. Representava uma obra arte. Bonito. Minha tia chama Lucíola por causa do romance. Minha prima chama Sandra porque assim chamava sua avó. Por isso a Sandra prima tem coerência, mas já a Sandra sua avó não. Esta pobre, era Sandra porque era Sandra. E só. Que nem eu, pobre de mim também. Que não sei porque raios me chamo Mara. Nome infeliz que nada representa. Minha mãe, que Deus a tenha, dizia que quem escolheu meu nome foi meu pai. Pai esse que eu nunca conheci. E a investigação teve que ficar por aí mesmo. Enigma eterno. Nunca pude saber porque assim me chamo. Karma. Injustiça. Caso arquivado. Mas e eu? Algo tão colado em mim, pregado na minha carne, na minha alma, no meu tudo. Tudo meu é de "Mara", e minha mãe espalhava etiquetas com meu nome em tudo que levava para a escola. E eu nem sei nada sobre isso. E nem pediram minha opinião. Madonna diz que o nome dela foi um lindo presente. Boba Madonna. Tudo bem, estou com inveja. Não me recriminem. Estou chateada. Talvez mais. E nem me venham falar em dicionários de nomes. Eles igualam todo mundo. Deve ter Madonna neles e nem por isso ele representa minha amiga. É falso. É fingimento, puro fingimento para que a gente se sinta bem e confortável. Querem nos silenciar. Querem nos calar e calar nossa vontade por respostas. Nos querem dóceis. Ovelhinhas. Preciso mencionar que também tem sentido os nomes que representam flores. Margarida, Rosa, Petúnia. Preferia chamar margarida, mas ninguém me perguntou. Foram me enfiando a força numa roupa que eu não escolhi e que não me representa. "Mara". "Mara" não me representa porque "Mara" não representa ninguém. E nem nada. "Mara". Seco. Um cuspe seco.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Eu trago. Não do verbo trazer, mas do verbo tragar. Eu te trago. Te sugo.
Me sinto como mar, a lamber suas pernas e te puxar para mais perto. Sempre mais para perto.Te encharco. Se você deixa, te invado ao ponto de te privar do ar. Estrangulo. É sem propósito, é sem querer. É porque sou líquida. Sem forma. Escorrego. E meus olhos escorrem. E vou entranhando devagar.
Não é por vontade minha. Por isso temo pela vida dos que me vem, porque há sempre risco de morte. E risco de morrer. As vezes recuo, e recuo.
Ninguém consegue ver muito bem o que guardo no fundo. A maioria se satisfaz com a minha superfície. E gostam do meu toque. E de como os coloco para ninar. E da sensação de estar dentro. Se banham quando querem, o quanto querem e se vão. Simplesmente. Alguns me tem mais amor. Outros, mais admiração. Tem gente que tem medo. Tenho força, mas não sei usar. As vezes revolto, às vezes tranquilo. E mudo assim em pouco tempo. Sou um pela manhã, outro a tarde e mais um outro a noite.
E a ressaca é avalanche. Ninguém vem até mim nos dias de ressaca. Solidão salgada.
Sou muito, muito volumosa. Caudalosa porque me bifurco. E me perco tanto e tantas vezes. E acabo sempre perdendo um tanto de água por aí. Qualquer dia eu seco. Primeiro rio extinto.
E, por fim, cuspo todos para fora. Nada é capaz de permanecer em meio a tantas ondulações. E no final, só me resta a mim. Mar adentro.
Me sinto como mar, a lamber suas pernas e te puxar para mais perto. Sempre mais para perto.Te encharco. Se você deixa, te invado ao ponto de te privar do ar. Estrangulo. É sem propósito, é sem querer. É porque sou líquida. Sem forma. Escorrego. E meus olhos escorrem. E vou entranhando devagar.
Não é por vontade minha. Por isso temo pela vida dos que me vem, porque há sempre risco de morte. E risco de morrer. As vezes recuo, e recuo.
Ninguém consegue ver muito bem o que guardo no fundo. A maioria se satisfaz com a minha superfície. E gostam do meu toque. E de como os coloco para ninar. E da sensação de estar dentro. Se banham quando querem, o quanto querem e se vão. Simplesmente. Alguns me tem mais amor. Outros, mais admiração. Tem gente que tem medo. Tenho força, mas não sei usar. As vezes revolto, às vezes tranquilo. E mudo assim em pouco tempo. Sou um pela manhã, outro a tarde e mais um outro a noite.
E a ressaca é avalanche. Ninguém vem até mim nos dias de ressaca. Solidão salgada.
Sou muito, muito volumosa. Caudalosa porque me bifurco. E me perco tanto e tantas vezes. E acabo sempre perdendo um tanto de água por aí. Qualquer dia eu seco. Primeiro rio extinto.
E, por fim, cuspo todos para fora. Nada é capaz de permanecer em meio a tantas ondulações. E no final, só me resta a mim. Mar adentro.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Oh passarinho, chegue mais perto!
Te vejo aqui da varanda tão bonito. Se diverte pulando de um galho para o outro.
Seu canto me faz um bem tão bom. E você parece sorrir.
Mesmo que seu coração seja tão leve, e mesmo que eu esteja te vendo de tão longe, posso distinguir o bater do seu coração do bater das suas asas. Suas azinhas ligeiras e de um colorido mágico. Elas te levam para tão longe de mim... mas seu coração te traz de volta. Talvez te agrade essas árvores que eu plantei em volta de mim e só por elas que você venha.
Ô passarinho, sou tão pesada e não sei voar como você. Fico tão presa aqui no chão e me sinto tão sozinha quando você não canta, Mas eu entendo. É porque não sou pessoa egoísta e quero que leve sua música por aí. Eu aguento a espera.
Sabe passarinho, acho que fico tão velha enquanto te espero. E você está sempre com a mesma idade. Deve ser porque nunca me deixa te ver mais de perto. Que você tanto esconde de mim? Tem medo de que te ponha numa gaiola? Oh não pense tão mal de mim! Nunca poderia fazer isso com você. Se toda sua beleza vem do contraste de suas penas com o azul do céu e todo meu fascínio por você vem da sua liberdade. Eu gosto mais é de te ver voar e de ver sua leveza. Ela me ensina. Se pensa assim de mim é porque não entende o que eu sinto por você. É porque sente diferente por mim. Me entristece que pense assim e só queira voar para longe. Sei tão pouco sobre você. É que passarinho não fala. Mas mostra. E o que você me mostra eu guardo. Esses dias, te escapuliu uma peninha sabia? Eu guardei. Guardei porque ela me faz lembrar que você existe e está em algum lugar desse céu. E eu sei que enquanto estiver pelo céu você estará feliz. E eu te quero bem. Sei que enquanto houver céu haverá felicidade em você, passarinho. E a minha felicidade está em acordar todo dia e ver que, por mais um dia, o céu se abriu para que você voe.
domingo, 2 de junho de 2013
De manhã, minha vó veio me dar notícia de que tinha chorado. Havia morrido um dos rapazes que, vez ou outra, vinha entregar água aqui em casa. Ouvi todo o caso e as lamentações de minha vó com ar de paisagem. Nada posso concordar com ela. Vovó mal conhecia o homem. Lamentou por ele ter deixado dois filhos pequenos. Afirmou que o morto era um homem sorridente, que parecia "gostar tanto de viver" e que era ainda tão jovem. Como se o direito a morte só pudesse ser dado aos velhos. Felizmente, Deus é mais justo que os homens e permite que a morte chegue para qualquer um. Nada disse a minha vó, não podia fingir condolências, nem forçar uma tristeza que não sentia. O que senti foi pura inveja. Quisera eu poder ter a eternidade de uma morte antes dos 30. Não sei há quanto tempo eu esperava por morrer, não me lembro quando e nem como começou esse meu desejo. Minha idade, mesmo que pouca para alguns, já me era muito: muito custosa, muito pesada, muito densa, muito sofrida. Minha vida era desnecessária a mim. Talvez fosse necessária a alguém. Mas a mim, não era. Olhei o mundo cara-a-cara por diversas vezes e não gostei nada do que vi. Tenho muito mais motivos para não gostar da vida e para não criar boas expectativas sobre ela. Há, obviamente, uma beleza e um prazer em tudo, e não nego ter coisas boas para me recordar depois de morta. Talvez, chegue a sentir saudade. Mas, certamente, se pós morte me perguntarem por minha preferência, responderei que quero continuar em meu sono eterno. E se me mandarem de volta, acredito que vou nascer chorando mais do que chorei desta vez, se é que isso é possível. Chorei, sem descanso até os dois anos de idade. Não dormia e comia mal. É isso, á nasci sem vontade de nascer... Quando finalmente chegar minha hora, não tenho dúvidas de que estarei pronta. Mais do que isso, estarei radiante. O grande sonho se realizará. Não penso em suicídio. Mentira, vou reformular: não cometeria suicídio. Nem cometerei. É indigno, é desonesto. Há que esperar o prazo da validade, de boa vontade ou não. É um transtorno, enorme. Interminável espera. Entretanto, já não tenho outra alternativa. Não consigo querer outra coisa com tanto amor. Me afeiçoei a ideia de morrer, como faz um filho a mãe. Nada me parece ser mais prazeroso. Nenhuma outra opção parece capaz de me trazer tanta paz. Há muita dor na vida. Ninguém sabe a dor que eu sinto quando abro os olhos, todos os dias, e preciso me levantar. Na vida, posso dizer que tenho duas certezas: a de que vou morrer um dia; e a outra é a de que uma pessoa estará comigo até o dia em que eu morrer: eu mesma. A segunda certeza é o que me faz ansiar tanto pela primeira certeza. Sabendo que jamais conseguirei livrar-me de mim mesma e; que sou a causa de toda minha desgraça, logo, jamais poderei livrar-me de minha desgraça - a não ser que me livre de mim mesma. É uma condenação: viver minha vida comigo mesma, até o fim. Só de falar, me pesam um pouco mais os ombros. Sorte tem esse moço. Se ele carregava apenas água nas costas ou o peso morto de uma vida que já não tinha, não sei. Só sei que ele já não tem mais corpo. E quem não tem corpo não carrega peso, flutua por não sofrer sob a lei da gravidade. E se regala por não ter que dar conta de estar vivo.
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