Por que há tanta dificuldade em libertar o amor? Por que insistimos em sufocar exatamente o que o torna tão belo: sua liberdade? O que acontece que nos faz querer o prender, querer ter posse, ter domínio, querer o ter dentro das mãos. Não é preciso isso para sentí-lo entre os dedos. Por que não amar a todos, amar a muitos e a qualquer um. Ao invés disso, nos corroemos de ciúmes, sofremos com traições, remoemos desavenças.
Ninguém é de ninguém, pelos menos não deveria ser. O amor é para ser distribuído, multiplicado. Que nos faz guardá-lo, individualizá-lo para um só?
Devíamos é nos doar mais de corpo, alma e de tudo o mais. Porque assim é o amor: é corpo, é alma e tudo o mais.
Abrir os relacionamentos, ter múltiplos relacionamentos, uma família de um milhão. Ah, devíamos todos estar abertos para receber e distribuir amor quando for possível tê-lo. Nos permitir conhecer melhor aos outros e se deixar conhecer. Penetrar naquele, invadir seus costumes, adentrar pensamentos, beber das suas ilusões, dos seus sonhos dos seus ideais e criações.
Sair por aí desfilando intenções de amor, intenções de amar. Sempre disposto, sempre afim.
Que belo seria o mundo despido das amarras, do peso das convenções, da força da moral cooptada.
Entender que o outro é tão interessante e tão imprescindível quanto você, e por isso tem direito a estar junto de quem você também ama.
Como é dificil escapar do egoísmo, se deixar levar pelo que vai contra. Que coisa é essa que vai contra?
Saibamos, que nunca dará certo. Não do jeito que é, não do jeito que está. Isso de agora, não é amor... e sem amor nada sobevive por muito tempo.
"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho" - Mário Quintana
terça-feira, 31 de março de 2009
domingo, 1 de março de 2009
Testamento
Preocupa-me o fato de não ter um lugar onde jogar minhas cinzas, que seja tão importante para mim que as mereça. Falo em merecimento como se fossem realmente algo importante, valioso. Algo é valioso se tem para quem assim ser, e se fosse pensar assim, talvez se torne indiferente o lugar onde irão parar meus vestígios orgânicos. Menos romântico do que Brokeback Mountain, talvez acabem num regular cemitério. Normal, banal, corriqueiro.... Afinal que herança mais tosca: cinzas mortais... E quanta inveja a minha!
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Sim, é pelo filme de ontem
THE BLOWER´S DAUGHTER
Damien Rice
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
Oooooooooohh
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new
Damien Rice
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
Oooooooooohh
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Fique junto dos teus
Não tenho dado motivo. Não, não tenho. Não pode se queixar. Talvez as cólicas estejam me impedimdo de pensar. Talvez tenha cansado de fazer cara de quem sabe, cara de quem quer. Quando a gente relaxa, duas coisas acontecem: ninguém aparece e alguém aparece. É que alguém apareceu quando eu ainda fazia cara de fome e não de saciada. Tudo bem, o silêncio fala por nós. A questão é que agora tranquei a porta, quem veio vai ficando, quem ficou do lado de fora que espere até eu me sufocar e ter que abrir pro ar renovar as veias, as artérias do coração. Do seu jogo eu já conheço, não é só comigo que você é mosca de padaria. Toda essa vontade é quase inacreditável. Acho que é passageira. Eu que não me arrisco. Quem gosta de ouvir piadinhas lê comédias. E seriam tantos os aborrecimentos. Teria que estar muito certa, muito pronta pra bater de frente, aguentar fofoquinhas e narizes tortos de quem perdeu. Estouo vendo você passar diante do meu sussego. Te vejo como quem tá no papel ilustre de chave de cadeia. Não que seja por uma vontade plena, mas também não são coisas simplesmente te ocorrem. A situação é essa e você, só calibra a realidade. Eu? Eu... antes anciosa dentro da prisão do que infeliz na liberdade. Não gosto de sinismo, assumo. Quando to no alto, aproveito. Quando quero descer, desço. Ficar em cima do muro dói as costas. E cá entre nós, você não está pronto pra perder. Não está pronto pra abandonar as glórias. Convenhamos, quem tanto faz por debaixo dos panos, acaba ficando bem pros dois lados. Quero ver ganhar confete de quem te conhece as entranhas.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Reciclável amor
Ingenuidade é pensar que estamos destinados a um único amor na vida. Ingenuidade maior é achar que um amor acaba. Sempre é possível amar novamente. Apaixonar-se faz parte da nossa criatividade. Um amor não é excessão, é raridade. Não vamos confundir. Não se sai por ai amando a torto e a direito (infelizmente), mas também não se pode achar que só há um para cada vida. Seria mais que injusto, seria assustador, deprimente, desumano. Condenar cada pessoa a amar indefinidamente uma única criatura e só. Pobre do amado também. O amor não seria nada além de um fardo. Seria como matar o amor, matar o que lhe faz ser o que é: sua espontaneidade. Agora, realmente acho que amores são para vida toda, mas não na forma de um destino ou um fim irremediável. Há diversas formas de amar e um amor também não anula o outro. O amor muda, pode mudar de forma, de direção, sem se apagar, sem se extinguir para sempre de dentro da gente. Talvez apenas decante no fundo do nosso pensamento. Basta agitar para usá-lo denovo. E basta deixalo quieto para que outro venha a tona.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Eu sei bem mais do que antes
Hoje mais do que nunca tudo faz sentido, todas as letras de músicas que mexiam comigo, as que eu sempre achei maravilhosas, mas sem um motivo concreto. Os poemas mais afins, hoje eu entendo. Todos premonições do que um dia estaria por vir. Todos se encaixam assustadoramente, as frases são diretas. Elas falam de nós. E não venha me dizer que o amor é universal e que as dores de cutovelos são todas iguais. Não mesmo. Por isso a beleza desses versos. Sua capacidade de se transformar aos olhos de cada um.
Enfim só
Não sei o que Deus quer de mim. E esta é uma pergunta que tem me ido e vindo várias vezes há um tempo. Talvez desde que fui embora, talvez desde antes. Não sei onde ele quer que eu chegue, aonde quer me levar, o que quer que eu aprenda com todos esses "contratempos". Chego a ter medo do que posso me tornar. Medo que ainda está por vir, medo do título que Ele quer que me seja de direito. Há de haver muita luta ainda e os méritos só são colhidos depois de muito penar. Sim, obviamente vale a pena, mas não deixo de temer os males que me esperam. Ao menos não me falta certeza no caminho de flores. Se consegui melhorar tanto em tão pouco tempo, imagino a coleção que poderei ter no fim. Isso me tranquiliza. Nunca sofri de falta de fé, apenas, mortal que sou, deixei que ela se enfraquecesse em certos momentos.
As pistas sempre parecem indicar, de um jeito ou de outro, que o que eu tenho que aprender é ser sozinha, que no fundo é isso que sou, o que somos: sós. Tudo acaba sempre apontando para "um cada um por sí". Tenho perdido muitas coisas, tenho sido "privada" de muitas outras. Aprendido na marra, não pela cabeça dura que é um item da coleção de coisas que perrdi a tempos; mas pelas circunstâncias mesmo. Não tenho mais um ponto se quer de apoio. Tudo esvaiu-se. Não tenho uma só pessoa que possa me situar, que possa me tranquilizar com sua simples e completa existência.
Se lá não estou bem, sempre soube que seria ilusão achar que aqui estaria. Uma vez fora, impossível voltar ao que um dia se teve. A regra é andar para frente. A solução está sempre adiante e não no que não pode ser ou foi.
De qualquer forma, sinto minha alma mais perto, me sinto mais em mim. Talvez seja isso. Por mim mesma não iria trocar os outros pela minha presença. Agora que já não estão, escuto minha própria respiração no silêncio quase enlouquecedor da ausência de uma alma afim. Da alma que eu sempre senti saudade, desde que nasci, desde que adentrei nesse mundo e nesse corpo. Verdade, a saudade tinha passado, se ausentou por um período da minha vida, ou talvez só tivesse me observando de longe (ou não tão de longe). Posso dizer que talvez estivesse sentindo saudade da saudade, que ela é parte de mim, nasceu e deverá por direito, morrer comigo. Ser minha até o fim. Minha e de ninguém mais. Hoje, colei comigo mesma. Sinto o retorno de meu velho gosto de menina, a volta da criatividade pulsante e consigo sentir o calor da arte fervilhando em mim. Quero gritar. Gritaria. Gritaria se não fosse pelo coração apertado, se não fosse a saudade, a ausência sem começo nem pretensão de fim. Como se fosse possível a coexistência de dois corações: um cristalizado pelo frio do vazio impreenchível e outro aquecido e cheio de sonhos, a salvo da interferência que a presença de outros insistem em se fazer insistir. Um coração meu e um da multidão. De qualquer forma sinto-me de volta e cada vez mais perto. Ainda bem, por um instante fui tão feliz que achei que teria me perdido para sempre. Enfim, é como se ouvisse minha própria voz dizendo: "Tudo bem, eles já foram. Pode dormir em paz agora. Pode voltar a sonhar com o impreenchível preenchido e voltar sofrer sua felicidade sozinha. Ninguém há de ouvir seus soluços nem seus risos, além de você. Ninguém há de perturbar sua radiante tristeza."
As pistas sempre parecem indicar, de um jeito ou de outro, que o que eu tenho que aprender é ser sozinha, que no fundo é isso que sou, o que somos: sós. Tudo acaba sempre apontando para "um cada um por sí". Tenho perdido muitas coisas, tenho sido "privada" de muitas outras. Aprendido na marra, não pela cabeça dura que é um item da coleção de coisas que perrdi a tempos; mas pelas circunstâncias mesmo. Não tenho mais um ponto se quer de apoio. Tudo esvaiu-se. Não tenho uma só pessoa que possa me situar, que possa me tranquilizar com sua simples e completa existência.
Se lá não estou bem, sempre soube que seria ilusão achar que aqui estaria. Uma vez fora, impossível voltar ao que um dia se teve. A regra é andar para frente. A solução está sempre adiante e não no que não pode ser ou foi.
De qualquer forma, sinto minha alma mais perto, me sinto mais em mim. Talvez seja isso. Por mim mesma não iria trocar os outros pela minha presença. Agora que já não estão, escuto minha própria respiração no silêncio quase enlouquecedor da ausência de uma alma afim. Da alma que eu sempre senti saudade, desde que nasci, desde que adentrei nesse mundo e nesse corpo. Verdade, a saudade tinha passado, se ausentou por um período da minha vida, ou talvez só tivesse me observando de longe (ou não tão de longe). Posso dizer que talvez estivesse sentindo saudade da saudade, que ela é parte de mim, nasceu e deverá por direito, morrer comigo. Ser minha até o fim. Minha e de ninguém mais. Hoje, colei comigo mesma. Sinto o retorno de meu velho gosto de menina, a volta da criatividade pulsante e consigo sentir o calor da arte fervilhando em mim. Quero gritar. Gritaria. Gritaria se não fosse pelo coração apertado, se não fosse a saudade, a ausência sem começo nem pretensão de fim. Como se fosse possível a coexistência de dois corações: um cristalizado pelo frio do vazio impreenchível e outro aquecido e cheio de sonhos, a salvo da interferência que a presença de outros insistem em se fazer insistir. Um coração meu e um da multidão. De qualquer forma sinto-me de volta e cada vez mais perto. Ainda bem, por um instante fui tão feliz que achei que teria me perdido para sempre. Enfim, é como se ouvisse minha própria voz dizendo: "Tudo bem, eles já foram. Pode dormir em paz agora. Pode voltar a sonhar com o impreenchível preenchido e voltar sofrer sua felicidade sozinha. Ninguém há de ouvir seus soluços nem seus risos, além de você. Ninguém há de perturbar sua radiante tristeza."
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
É preciso um bocado de tristeza...
E hoje bebo da melancolia a pequenos goles para não engasgar no soluço da solidão. A tristeza é como o vinho, em pequenas doses faz bem ao coração.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Aos nossos olhos
Esses dias me olhei no espelho e em lugar dos meus olhos, vi os de Clara. Aqueles mesmos olhos grandes expressivos e pesados, escurecidos pelas olheiras e pelos cabelos castanhos. Olhos que eu sempre achei que falavam por si só. Olhos que um dia foram cor de céu, exatos olhos de Capitu. Hoje são olivas. Talvez tenha sido um delírio de cansaço do fim de período. Sei que no espelho do banheiro, foram os olhos dela que reconheci no meu rosto pálido. Nós, tão diferentes na nossa semelhança. Herdeiras do mesmo útero invertido, filhas da mesma avó, incumbidas de sermos sem pai. De início estranhei aquela similaridade, mas logo cedi a inevitável semelhança externa que temos. Normal, somos irmãs, mais que isso. Clara vê minhas fotos de criança e acha que é ela. O estranho é que apenas por aqui bastam nossas semelhanças. E isso as vezes me faz esquecer que impróprio seria se não a reconhecesse em mim. Na idade dela eu esbravejava para que me deixassem fazer as coisas sozinha e emburrava ao constatar minhas incapacidades de um corpo ainda infantil. Eu queria era fazer, como se sempre soubesse tudo que sei hoje em termos de habilidades, mas, sendo criança, a idade "cognitiva" não me permitia. Me via assim, presa na minha infância. Já Clara, esbraveja logo um pedido de ajuda e um clássico "eu não consigo" diante das mais poucas coisas. À nossa criação desatenta, respondia com rancor e muitas "patatas" nos "culpados". Ela responde com uma inocência cúmplice aos "culpados", o que também a exclui do mundo real com eles; ou então responde com uma tristeza digna de pena. Os tempos dela são outros, mas vejo as mesmas histórias se repetirem e a vejo passar por muito do que eu passei. A vendo muitas vezes me vejo e tudo me faz entender antigas lacunas; descontinuidades que hoje, pude alinhar. Certamente, os tempos dela são mais difíceis. As coisas complicaram muito mais em 15 anos. Não sei se poderia eleger uma de nós como sendo a mais preparada para essa família. Sei apenas que estarei aqui e poderei explicar a ela as várias confusões que tinha na cabeça e a ela também serão inevitáves. São consequências do nosso "fantástico mundo de Bob". Os tempos são outros, as pessoas nem tanto.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Enquanto houver luz
Mas uma coisa é certa: os que passaram por mim ficaram (e até mesmo estão) muito mais do que os que por ti andaram. Porque minha sensibilidade é porta aberta para quem quizer alguma compania para uma conversa, para uma música, para um beijo, ou apenas para umas boas risadas a dois, a muitos. E que permaneçam em mim, todos, até o fim de minha vida. Pois meus olhos agora são luz, meu colo agora conforta, meu peito explode de tanto pulsar, do meu corpo irradia vontade e um querer acima de qualquer suspeita. Meu amor extravasa, meu amor por pessoas, meu amor por gente, minha sede de histórias, minha sede por noites intermináveis. Queria que as noites fossem eternas, que o fulgor nunca me adandonasse. Que a vida não passasse de um sonho intenso, cheio de alucinações cotidianas.
Você insiste em se trancar, insiste em se esconder, em caminhar com as maõs soltas, vazias. Insite em desatar laços, em não fazer de nada permanente. Em matar todas as ilusões do pensamento infinito. Nunca os quer sentir de perto, nunca os quer penetrar a alma. Não os quer além do simples encontro. No entanto eu fui mais longe. Consegui escorregar entre as frestras e pude ver o mais lindo amor resistindo por debaixo de tantos esconderijos. Pena que ele não consiga sair de lá.
Você disfarça, desconversa. Eu escancaro. Quem vê me culpa, eu que sinto sei das coisas. Descubro por debaixo dos panos uma fidelidade de sentimento e dezenas de traições de carne. Não escondo meus amores, não cubro meus pecados. Você desconversa. Faz tudo nas entre linhas. Eu leio até as notas de rodapé. Sei muito mais que imaginas, sei muito menos do que imagino, sei que há muito para ainda me surpreender. Que importa? No fim, só eu sei o caminho obscuro que leva para dentro daquilo que te acende, que te disperta, nem que seja por um tempo tão corrido.
Você insiste em se trancar, insiste em se esconder, em caminhar com as maõs soltas, vazias. Insite em desatar laços, em não fazer de nada permanente. Em matar todas as ilusões do pensamento infinito. Nunca os quer sentir de perto, nunca os quer penetrar a alma. Não os quer além do simples encontro. No entanto eu fui mais longe. Consegui escorregar entre as frestras e pude ver o mais lindo amor resistindo por debaixo de tantos esconderijos. Pena que ele não consiga sair de lá.
Você disfarça, desconversa. Eu escancaro. Quem vê me culpa, eu que sinto sei das coisas. Descubro por debaixo dos panos uma fidelidade de sentimento e dezenas de traições de carne. Não escondo meus amores, não cubro meus pecados. Você desconversa. Faz tudo nas entre linhas. Eu leio até as notas de rodapé. Sei muito mais que imaginas, sei muito menos do que imagino, sei que há muito para ainda me surpreender. Que importa? No fim, só eu sei o caminho obscuro que leva para dentro daquilo que te acende, que te disperta, nem que seja por um tempo tão corrido.
Chico Buarque tem cheiro de infância
Só eu sei dos dias em que minha mãe ainda usava pregadeiras no cabelo formando um rabo de burro curto com os cabelos pretos. A época em que as janelas estavam abertas para o sol, época da cadeira de balanço na varanda, época em que meu avô era vivo e passava os dias e as tardes no quintal com os passarinhos, e as noites lendo. Minha vó era tão ativa e não aparentava de nenhum jeito a idade que tinha. Saudades do tempo em que ainda se ouvia música naquela casa, saudades do vinil, dos LPs... saudade da época em que eu era mais mal humorada e ranzinza e magrela. Saudade da minha franjinha. Saudades do Chico...
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