quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

São 2:24 da madrugada de quarta-feira. Melina deveria estar dormindo, no entanto, a descoberta que fez entre os lençois lhe atormenta a cabeça de tal forma que o cansaço do corpo não vence a inquietação. Arrependimento: "Deveria ter me cansado mais durante o dia...". Não tinha atingido a exaustão nescessária para cessar o movimento da mente. E que maldita é a mente! Já estava quietinha em sua cama, no quarto mais fresco da casa, com ventilador de teto a espantar pernilongos quando se viu diante da revelção mais irremediável dessa fase de sua vida: era amor. Amor dos bons, dos verdadeiros, amor para uma vida toda, vida esta que estaria condenada a partir de então. Aff... Até pior, para mais de uma vida toda, afinal, o destinatário desse sentimento todo era morto. Tinha falecido a dois anos e levado com ele o pulmão de Melina. Desde então, ela passou a fumar cada vez mais e fumava hoje em dia mais de um maço por dia. Nas noites abafadas de insônia como essa, chegava a dois maços fácil. No maço do beiral da janela, restavam cinco resistentes cigarros. Cigarros como guerreiros que eram abatidos depressa, na perda da batalha contra ela mesma. O sexto guerreiro estava entre os lábios dela, vencido. Os olhos de Melina se perdiam nas luzes amarelas dos postes distantes que a janela do terceiro andar avistava com certa dificuldade perante o breu, que era maior. A fumaça que escapava se ia para perto do breu, da noite quente, de bafo seco.
Átila era o nome do defunto. Não que tivesse morrido de corpo realmente, sua matéria sobrevivia no estrangeiro. Tinham se conhecido, Melina e Átila, no carnaval que ela tinha passado com as amigas na capital. "Cordão do Boitatá". Foram logo queimando de paixão desde o primeiro beijo, no domingo de manhã de sol de pedir arrego em que o bloco seguia, e só terminou a noite, na cama de um muquifo qualquer da Lapa. O carnaval sempre gosta de terminar na Lapa. Fim do sexto cigarro. O calor dessa noite era tão estrangulador quanto o daquela outra, do domingo de carnaval de dois anos atrás. Tanto calor foi um certo problema para Átila. Mesmo já estando no Rio a um més por conta da doença de um tio-avô, ainda não havia se acostumado, não era do litoral de sua terra. Apesar de peruano, Melina achava que ele entendia do calor como ninguém, principalmente do calor que vinha dela. Era o que ela sentia entregue aos carinhos dele até a quarta-feira de cinzas (que não podia ter nome mais apropriado). "Pelo menos ainda é América Latina... e ainda tem os primos cariocas.." e ela ria de tanta dor e azar que tinha. Continuaram se falando por dois meses com a ajuda da tecnologia, principalmente internet, porque telefone era um verdadeiro assalto. Melina ia toda noite na casa da sua tia entrar na internet. Como eram vizinhas e a internet de casa era incrivelmente discada, mesmo depois sendo coisa aparentemente rara hoje em dia, isso de internet discada. A de Melina ainda era. Melina tinha sido criada com sua prima Estér, sempre foram vizinhas e confidentes. Estér tinha passado aquele carnaval com Melina como de costume e sabia de toda história, não podia negar-lhe cumplicidade. A internet. Via de mão dupla no relacionamento dos dois. Diante do monitor Melina pode conhecer melhor seu amoado e também toda família dele. Átila era casado. Malditos sejam os sites de relacionamento. E olha que ela demorou a descobrir. Na verdade, foi por muita insistência da prima que ela o procurou na rede. Melina acreditava na palavra de Átila, que dizia não ter tempo para essas coisas.
Átila tinha vindo ao Brasil por conta da morte desse tal tio-avô que na verdade preenchia o lugar de avô para ele. Seu avô tinha morrido quando ele tinha apenas quatro anos e se lembrava pouco de sua figura. Já com o tio avô, tinha convivido até os 15, aqui mesmo no Brasil, quando seus pais se separaram e ele voltou com a mãe para o país em que morava a família materna. Átila veio sozinho ao Brasil por causa do alto custo que a viagem teria se viessem o casal de filhos e sua mulher. Por um acaso, o parente tinha morrido em boa época e Átila pensou que seria um disperdício não estender por mais uns dias a viagem, para relembrar a festa que empurrava todo mundo para rua. Movimento lindíssimo, contagiante, encantador.
Foi isso. Depois de saber da história por completo, Melina deu fim a Átila. O deletou de toda forma concreta possível. Na verdade, ele já não a procurava a tempos, só o movimento inverso se fazia. Bastou ela parar. Não houve insistência (de nenhuma das partes).
Melina tocou a vida, teve outros amantes. A um deles, chegou realmente a sentir um afeto tão forte quanto o que dedicou a Átila. mas foi caso sem continuidade. Como todos os outros.
"Foi assim... - procurava pensar - lindo e eterno enquanto durou". Mas infelizmente, ela não tinha o desapego de Vinícius e era isso lhe martelava a cabeça então. "Meu Deus... eu amo aquele homem morto". E quê fazer com isso? Quê fazer com todo esse amor que não pode ser entregue? Amor como porta que só abre com a chave certa, que não serve a qualquer uma. Como ter sossego para descansar sobre o silêncio de uma noite tranquila, se ela transborda amor. Como descansar enquanto suas veias fervilham, seu pensamento insiste em transitar nas memórias, sua boca seca, engole palavras de afeto que descem azedas por estarem estragando na garganta? Como dormir com todo esse pulsar? Como durmir se ela está viva?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A dor que ela sentia, ela bem sabia o que era. Dor antiga, dos tempos do cólera. Qualquer homem da face da Terra, certamente sofreu do mesmo mal. Talvez seja doença mais antiga que os próprios homens. Talvez seja a praga mais corrosiva de todas. Intrínseca ao humano. Dúbia, se pode ser causa primeira, pode também ser o grande ponto final. O motor que impulsiona e a tragédia mais certeira, capaz de motivar o mais duro e derrubar o mais convencido. Claro: amor. Que mais? Amélia estava com todos os sintomas. O diagnóstico era inconfundível e lhe caiu sobre a cabeça como uma sentença. Dentro do ônibus, via as ruas passarem com suas calçadas, sua gente, enfeites: tudo era igual, por mais diverso que fosse. O Rio cinza no verão de céu azul e calor dourado. Tirando ela, tudo mais brilhava. Era época de ano novo, lustroso, relusente. Só dentro dela era tudo velho: as mesmas dores, as mesma angústias, a mesma pena do mundo. Nada aliviava a dor da ausência, a solidão povoada, a solidão das companias. Não importava quem fosse, era sempre a mesma coisa, eram todos iguais: vazios. Não chegavam nem mais a dar a falsa impressão de conteúdo. Ela já os conhecia, mesmo sem trocar uma palavra sequer. Concerteza nenhum deles iria fazer diferença substancial em sua vida. Ela não esperava mais que a sacudissem, não esperava ser sacudida. Não esperava por alguém que a fizesse mudar de vida, nem que a fizesse querer mudar de vida. Só esperava da vida o morno, o que já foi quente e só faz esfriar. A constância, a linha reta, infindável linha reta.
Amélia não era o tipo de mulher que se chamaria de bela, mas tinha algo que a fazia interessante. Um ar de quem domina, um jeito de quem entende da vida, das coisas da vida. Uma cara de quem viveu e conhece, sabe dar forma. Cara de mulher com pegada e desejos a serem satisfeitos. Mulher misteriosa. E isso bastava, bastava para que sempre houvesse homens dispostos a preencher seu tempo. E a essa altura, já tinham sido tantos e eram tantos e tantos outros que se inscreviam como candidatos, que no final tanto fazia. Tanto fazia se fosse João, Pedro, José, ou outro apótolo, discípulo, anjo ou mortal. Todos seriam sempre iguais. Amantes e mais nada.
A dor que lhe expremia os órgãos e secava a boca não tinha direção, ou se tinha ela não sabia. Não sabia mais. Eram tantos e foram tantos que era impossível saber a quem era dedicado o gosto de fel. Então, não tinha solução. Não havia como saciar a vontade do encontro. Afinal, não tinha encontrado e nem vontade de buscar.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Projeto Piloto


A primeira, vamos ver... foi um rascunho, pintei nas costas de uma camisa velha, mas gostei demais.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Crise dos vinte anos

Não posso negar que fazer vinte anos foi algo impactante na minha vida, e estou escrevendo um pouco tarde sobre isso, já estou perto dos vinte e um e já me acostumei com toda a tensão. Mas, os meses que antecederam março do ano passado, me fizeram pensar bastante sobre minha vida, minha vida a partir dos vinte.
Primeiro, que quando a gente era criança e se imaginava com vinte anos (Meu Deus!), se imaginava um super adulto, super independente, trabalhando e quase casando, muito dona de si mesmo, linda e decidida, enfim, aquelas balelas que tem igual valor a fantasia do príncipe encantado (que ainda vou escrever sobre). E derrepente, a idade simplesmente chega. Quando você está com dezoito, tranquilo, ainda tem muita coisa ainda, você ainda é extremamente novinha, enfim. Aí você se aproxima dos vinte e seu gosto por homens dá uma volta de 360 graus, e você começa achar barrigudos charmosos e chega a colocar loiros e morenos no mesmo nível de beleza e derrepente acontece: você fica com um cara 10 anos mais velho que você, ou seja, você beijou um homem de 30 anos! Jesus! Eu disse que você beijou um HOMEM de TRINTA ANOS! É um choque. Não posso negar, o primeiro homem de cabelos brancos nunca se esquece. E quando isso acontece...
Quando você sai com suas amigas nos lugares que costumava ir e parece que a pirralhada dominou o mundo é o sinal. Quando você começa a dar mole pros tios de terno, é o sinal. Quando os amigos do seu pai começam a encontrar você na noitada, é o sinal. Quando sua mãe começa a ficar realmente admirada com a beleza dos seus namorados é o sinal. E ainda pior, quando a sua avó é super amiga da mãe do cara, o sinal já queimou de tanto que piscou. É... você está ficando velha, daqui a pouco você que está desfarçando os fios brancos com luzes. Sua mãe começou a ter os primeiros fios brancos aos 24. 24? Então só há mais uns poucos anos de virgindade capilar. SO-COR-RO!
É, dá vontade de gritar. Acho até que estou entrando na crise dos vinte outra vez. Mas, a questão é que os vinte anos não te fazem apenas perceber a pele mais enrugada. Tem muito mais coisa aí debaixo. Pensando dentro de uma cronologia mais banal, é dos vinte aos 30 que sua vida tem que se estruturar (eu disse e repito: dentro do pensamento do senso comum, o socialmente aceitável e considerado "normal"). Dos vinte aos trinta, a sociedade e seus pais esperam que você: se forme numa faculdade ou tenha uma profissão que te permita o auto-sustento; saia da casa dos seus pais e levante a bandeira da independência; arrume uma pessoa legal e se case (alguém mas teve calafrios na presença dessa última palavra? heim? heim? heim?calma que o pior está por vir) e tenha filhos (alguém desmaiado?). E isso principalmente para a mulher, a mulher é muito mais cobrada, sofre muito mais com a pressão social. Uma mulher com mais de trinta, solteira e sem filhos, corre o risco de ser assim pra sempre, é o que dizem nossas tias gentis. Então, uma menina de vinte anos tem que ser uma mulher de vinte anos, que se não tem pretendente, começa a fazer as contas do tempo útil que ainda lhe resta para que consiga arranjar um. Nem tanta pressa, porque seria dificil mantê-lo por quatro ou cinco anos, o mais provável é que ele escape, e você também não quer casar aos 22, por favor! É preciso calcular milimetricamente o tempo, os anos, para que no momento certo (nem muito cedo, nem tarde demais) você esteja com seu emprego, com seu noivo, planejando a cor dos cabelos dos filhos.
Tá, agora realmente estou sentindo a pressão nos ombros voltar. É verdade que os tempos estão mudando, amém. Mesmo antes, haviam aquelas lindas mulheres de vanguarda, vestidas de calça jeans, com livros nas mãos ao invés de colher de pau. Só que hoje em dia você tem que se virar com a colher de pau, a mamadeira, os livros, e mais o salto alto, o cabelo tem que estar arrumado, os prazos tem que ser respeitados...
Ainda não vivo todos esses imperativos, mais muitos deles já vivo sim. Mas, eu gosto de burlar a parte do cabelo sempre arrumado e principalmente do salto alto. Apesar de serem imperativos mais fortes hoje do que foram aos 19. Cada anos que passa parece que você está se vendendo mais e vivendo menos. E não se costuma perceber isso, você vive realmente no automático. Só quando você fica sem andar direito porque aparece uma hérnia na sua barriga ou duas ínguas na sua virilha, uma de cada lado, ou quando seu resfriado finalmente vira uma pneumonia, que você começa achar seriamente que está na hora de parar. E também, por mais que aquela mulher de vanguarda seja fálica, você também quer uma vidinha mais ou menos, uma casa, formar família e de preferência antes dos trinta, sim!
Claro que não dá para se entregar a neurose, e ficar correndo atrás de homem desesperadamente só pra casar antes dos trinta ou se formar em qualquer curso só para ter uma graduação, enfim.
Ahhh... talvez seja tudo igual na infância, balela (né? né? Diz que sim!). Antes, poderia falar assim, agora que estou dentro dos vinte a trinta, o cerco vem estreitando, confesso. Como estarei, ao ver meus prazos estourando?
Risível gente, muito risível esse texto. Eu, mulherzinha neurótica? (que bom, melhor que psicótica!). Tá, dor de cabeça, então... hora de parar (ou fugir?).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Morte do eu-lírico

Há muito tempo esse nome me incomoda, então resolvi mudar. E talvez mude novamente. E mais uma vez. Enfim (reticências)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dos trens

Eu, cercada por quatro lâminas de metal, não tinha escapatória. Do chão brotava o vapor que fritava dezenas de pés. Quando andei até o último vagão a procura de um acento, não imaginava todo o calor que me esperava dentro daquele caixote de aço. Sentei-me. Pensei em tirar os óculos escuros para enxugar um pouco o suor do meu rosto. Depois pensei numa estratégia de livrar meu colo da minha mochila preta de lona e da minha bolsa de material sintético ardendo na fervura da temperatura; e (ardendo) sobre minhas coxas. Olhei para as grades acima da minha cabeça (mais metal). Sugestivas, feitas exatamente para isso: pôr bolsas. Depois pensei que talvez não fossem caber, que a altura seria insuficiente, minha mochila estava estourando de cheia. Preferi deixar minhas pernas assando embaixo das minhas tralhas. Não havia espaço para mais ninguém nos acentos, já tinha gente em pé, acomodada como podia. Ninguém estava confortável, era visível. É o momento que você começa a se incomodar pela demora na partida do trem. Não sei quantos graus marcavam no Rio, mas vim a saber que no dia seguinte, a sensação térmica no centro foi de 46 graus centígrados. Surreal. E, o detalhe do horário: 12:30, horário de verão. Só chegaria em casa lá pelas 15:30, no mínimo, sendo otimista. Na verdade, acabei chegando as 16:00, não por culpa do trem. São dois trens até paracambi e as vezes acontece dos horários não baterem e ter de ficar em Japeri esperando o próximo trem. Quando isso acontece, provavelmente, o horário do ônibus para Barra do Piraí, também vai desencontrar com a hora que se vai conseguir chegar em Paracambi. Resta ter paciência e esperar. Alías, essas baldiações muito tem me ensinado a ser paciente e a tolerar viagens longas. Mas dessa vez deu tudo certo, calculei bem os horários dos trens e logo que aportei em Paracambi, subi no ônibus rumo as minhas mini férias descabidas. A culpa, da minha meia hora extra de treinamento de resistência foi do maldito ônibus de Paracambi. Maldito, nem tanto hoje em dia, porque realmente estou faixa preta em tolerância, mas já passei momentos tensos dentro desse ônibus.
Comparado com o ônibus de Paracambi, a viagem de trem é uma maravilha. Exceto no calor absurdo que estava fazendo. O trem vai mais rápido, o ambiente é mais divertido, a viagem é bem menos maçante. Sem falar que fome você não passa e ainda pode escolher o que vai comer, porque ambulante vendendo troço, não falta, e os preços são ótimos. E a fome sempre chega no ônibus, aí você pensa "poxa devia ter comprado um amendoinzinho... agora já foi, é tarde". E aí você tem mais uma variável para aprender a lidar: a fome! Dessa vez, não tive fome em nenhum momento da viagem, minhas bananas e maçãs deram conta. Mas, realmente de Paracambi a Barra, a viagem é sem fim. O ônibus passa por Paulo de Frontin, Mendes, e as paradas são intermináveis. Pouca gente fica do início ao fim da viagem dividindo o ônibus comigo. A cada parada você vai vendo o estoque de pessoas ser renovado e na parada das duas rodoviárias, geralmente só fico eu lá dentro, esperando a nova safra. Outro agravante é a péssima estrada. Nem tudo é asfaltado. Vamos todos quicando, dançando aos solavancos. Sem falar quando o ônibus vai abarrotado. Nesse dia, se isso tivesse acontecido, acho que não teria me saído tão bem no desafio. Bem ou mal, o trem tem bem mais espaço. As pessoas se movimentam, entram e saem ambulantes o tempo todo e vendem tudo e são berros e mais berros anunciando de tudo, e vão de um vagão ao outro (quando o trem permite, quando os vagões não são isolados), e é uma variedade de gente, de cores, de idade, de trajes, de cheiros, falas, sotaques. Nunca se espera encontrar uma mesma situação numa próxima viagem.
No trem reina o campo do inesperado. E, por mais que a viagem do ônibus não seja nunca a mesma, de certa forma, sempre parece ser. É muito mais constante. Dela sim se espera uma constância, uma mesmice: todos sentados; curvas e mais curvas; paradas e mais paradas; paralepípedos a perder de vista; muito barulho a ponto de em certos trechos, não conseguir ouvir o mp3; e muito mato visto da janela. Que mais pode se esperar? Na maioria das vezes só tragédia ou algum barraco. Talvez umas variáveis mais brandas: super lotação/pouca gente, lugar para sentar/ir em pé, motorista assascino/motorista lerdo, enfim. No entanto, as variáveis parecem ser muito menores do que na viagem de trem. Não digo que de certo são, digo que de certo parecem ser, de certo se espera que sejam. No mais, um pentelho fica ouvindo som alto no celular ou a fome atinge níveis de extremos.
Apesar de acentos duros e da coluna não ter posição sossegada, apesar da sujeira e mal estado dos trens, de todo o barulho e confusão que fazem os passageiros, pedintes, vendedores, pregadores, da agonia que dá ver o vagão do lado pulando em cima dos trilhos de uma forma que se espera que ele descarrilhe a qualquer momento (nos tres em que os vagões não são isolados), apesar de todos os pesares, no final das contas, a viagem de trem passa muito mais rápido, é muito mais suportável e rica. Algo que tem uma certa graça em fazer, algo que merece ser contado para os netos, entende? Ninguém vai querer contar que andava de ônibus de Paracambi a Barra do Piraí, coisa mais chata.
Só naquela quarta-feira, a viagem de ônibus foi mais suportável do que a de trem. Tinha a esperança de que quando o trem entrasse em movimento, o calor fosse atenuado pelo vento das janelas. Ledo engado. O vento veio, mas quente, bufando, denso. Parecia vir do atrito dos trilhos, quase uma fumaça. O dia baforava na nossa cara. E o ar mormo se misturava com a catinga humana exalada por todos aqueles suvacos suados que não tiveram outra alternativa dentro daquela sauna coletiva, a seco, pública. Fiquei imaginando a tempteratura dos trilhos. Acho que meus pés sabiam mais. Beber água não era hipótese viável, porque banheiro era piada e seriam três horas e meia no mínimo segurando xixi. Melhor aguentar a boca seca, do que a bexiga cheia. Força, aguenta. Praticamente um exercícios de meditação. Isso sim é saber abstrair, elevar o pensamento. Não aquilo que essa gente metida faz por ai. Isolado num canto da casa, do lado de uma fonte, ouvindo musicas de flauta num cd, é moleza. Pobre medita de outra forma, se não medita, medita. Não tem jeito, não dá para pedir para sair, não tem como pedir arrego.
O bom de ser nem tão pé-rapado, nem tão nariz em pé, é poder conhecer um pouco de ser os dois. É poder escolher, na maioria das vezes. Foi minha opção pagar só R$13,50 para ir para casa (tudo para sabotar a Normandy). Os prós e contras foram pesados, medidos, analisados e eu já imaginava os contratempos e sabia mais ou menos o que me esperava (porque saber mesmo, nunca se sabe) quando tomei minha decisão. E mesmo assim, a tomei. E, no final das contas, como diz minha mãe copiando o poeta: "tudo vale a pena se a alma não é pequena".

sábado, 7 de novembro de 2009

É verdade, claro. E, é tão óbvio que fica difícil perceber. A maior liberdade que podemos sentir é exatamente em casa; seja quem, o que ou aonde for. A paz de estar em casa é o que nos deixa mais próximo da utópica sensação de liberdade pura.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ele a conquistou assim: exatamente por ser simples. Nunca fez por onde impressioná-la, sempre agiu naturalmente, como se cada gentileza fosse realmente verdadeira, sem pretensões. Ela achava incrível, como tudo tinha contecido, como no meio de tanta gente, ele a tinha escolhido. Ela não tinha nada demais. Era bonita, mas beleza se acha em tantos lugares e em tantas coisas; no entanto, ele foi logo se interessar por aquela que ela tinha. Poderia ser acaso. Poderia ser sorte. Dá no mesmo, são só pontos de vista diferentes para a mesma coisa. Isso não importava, o que importava mesmo era aquela tarde num dia improvável que os dois passaram juntos. É, porque incrivelmente ele ligou para ela depois do dia em que se conheceram. E trocaram mensagens pelo celular por três semanas, até que ele conseguisse voltar para vê-la novamente. E ele veio. E veio de longe e foi até a casa dela buscá-la como se fosse o mais natural do mundo fazer isso. E digo natural, não porque ele fizesse isso com todas, mas porque ele a tinha escolhido, oras. Era tudo tão óbivo e fácil que era assustador. Não era como se já se conhecem, era como se fosse para se conhecerem.
Ele não falava muito e ela acabava inibida pelo silêncio dele e se limitava. Só que isso não a incomodava, e esse era o estranho. Mesmo sem saber muito dele e mesmo que ele não soubesse muito dela, o encontro dos dois era incrivelmente agradável. Não era estafante, nem ofegante. Era na medida certa, no ponto exato para que fizesse com que os dois quisessem mais, mas sem pressa. Tudo corria com calma, devagar. Ele não a apressava, deixava que tudo fluisse. Estava perto o suficiente para se fazer presente e longe o bastante para que ela quisesse saber mais. E, talvez o que ela mais quisesse era que ele assim ficasse por um bom tempo: incógnita.

domingo, 11 de outubro de 2009

É claro que eu iria até sua casa só para ouvir escondida atrás do muro você cantar Bob Marley enquanto lava roupa. E nos momentos que você deixasse o cd cantar sozinho, eu iria sentir sua falta e ia pedir em silêncio que você voltasse a me dar o prazer de sua voz. O barulho da água da torneira caindo na bacia, junto com aquele outro barulho que faz o movimento das suas mãos esfregando a roupa talvez já baste para que eu não me sinta tão sozinho, mas só o timbre brando da sua voz é capaz de me dar o conforto para continuar na luta de viver longe de ti: saber que você existe. Em algum lugar, não importa, se longe ou se perto, mas você existe. Continua vivendo em alguma parte de mim, do mundo. A certeza de que você está presente é tudo que preciso: saber que tenho para onde correr, meu querido abrigo. Que eu posso correr para os seus braços quando sentir muito medo ou dor. Durmo em paz, sabendo que amor eu tenho e que não mais preciso de nada, além da fantasia minha por ti. Afinal, quem canta enquanto lava a roupa sou eu e não você, mas é que nessa confusão entre nós, nos misturamos tanto que não saberia mais dizer quem sou eu e quem é você. Como se, agachada atrás do muro para te ouvir, ouvisse minha própria voz soltando notas em melodia harmoniosa. E como poderia ser diferente, se te levo para todos os lugares comigo, e se quando vai leva também uma parte minha, do que somos. Peço desculpas por te confundir com um alma tão impura como a minha, e se nessa brincadeira acabei te turvando um pouco e te fazendo se sentir tão obscuro, tão desonesto, sinceramente não era minha intençao. Mas, é que não sei te tomar assim como substância pura. E aquele a quem dedico meus sentimentos, não é mais do que uma experiência minha, criações dos meus sentidos, do meu próprio corpo, do meu próprio ser: coisas assim tão enganosas, tão imparciais, tendenciosas. Não és mais do que aquilo que invento, não és mais do que eu quero que sejas, amor.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A julgar pelo tempo, parecia junho. Chovia rasoavelmente como se fosse início de inverno. Nem tanto quanto março, mas nem tão fino quanto julho. Só que era outubro. Do outro lado da rua a vitrine com biquines e sombrinha de praia denunciava a primavera. "Eita tempo doido" pensava Joana enquanto abria a porta do prédio com certa dificuldade, equilibrando a sombrinha enorme e mais uma bolsa de compras, só com uma das mãos. Mesmo do lado de fora se ouvia o pagode irradiando do apartamento do vizinho do primeiro andar e ao fundo uma voz acompanhava a letra em alto e bom tom. Joana achava aquilo agradável, dava uma falsa imagem de familiaridade. E entrou no prédio cantando também. Entrou, fechou a sombrinha, trancou a porta e subiu até seu apartamento 201. Ao entrar deixou a chave do lado de dentro da porta, largou a bolsa na mesa da cozinha, tirou o tênis e o levou junto com a sombrinha para a varanda. "Oi choquito!". Choquito era o peixe que ficava no centro da mesa da cozinha e também era a única compania de Joana no apartamento. A varanda era pequena bem como o apartamento, tinha uma lata de livo, um varal posicionado acima dela e um tanque. Largou o tênis e a sombrinha no tanque. "Vê só se eu não levo a sombrinha grande, ia chegar toda ensopada aqui". Joana ia tirando a roupa pela cozinha enquanto ia falando com o peixe. "Quando eu era criança, as estações eram todas certinhas Choquito, mas você nem sonhava em nascer nessa época..." e desabotoava o casaco cinza de veludo. "Agora tá tudo assim... tudo assim...tudo mudado...". Catou as peças de roupa e se aproximou do aquário, fazendo bico e falando igual criança:"E você ficou bem, ficou?". Ficou um tempo olhando o aquário. Suspirou. O vizinho se esguelava de cantar. Foi para o quarto. Sentou na cama só de meia e calcinha, com as roupas nas mãos. Muda, desolada. "Como as coisas mudam" repetia em pensamento. Como as coisas mudam. Quando nova o tempo era mais decidido e Joana também. Do alto dos seus vinte e sete anos, se sentia bem predida. Não era mais forte como antes, com aquele pulso firme de quem sabe o que quer, de quem quer. Se via confusa, com propósitos embaralhados: um certo tumulto que as coisas começam a ter num certo período da vida. Joana já tinha passado da fase de querer mudar o mundo e vencer a qualquer custo. Já não malhava para concorrer com a Juliana Paes, já não cordenava sua equipe na empresa de telefonia como se fosse Roberto Justos, já não esperava encontrar um Gianechini em cada sexta-feira a noite. A vida era mais lenta, as vontades eram mais humildes, as decisões menos escandalosas. "É... o tempo, vai passando, a idade vai chegando... a gente amolece...", falou em tom desperançoso. Essa não era a vida que Joana imaginava ter naquela idade. Com vinte e sete anos, já queria estar com um casal de filho ou pelo menos com um e grávida do outro. Filhos de Mateus, obviamente, seu noivo a sete anos. Joana se sentia como um pudim a cozinhar eternamente em banho maria, no fogo brando. Quando começou a namorar Mateus, Joana sabia que era com ele que formaria família, sonhos, vida. Aquele papo fofo de ficar juntos e morrer velhinhos numa casa com quintal e com os filhos e netos criados. Agora, Joana achava isso balela, mas não se via em condições de pôr fim a sete anos de tantas e tantas ilusões agradáveis. Ele parecia um fogão de seis bocas no começo de namoro; agora, ela não o via mais do que como um fogão de lenha. Mas, isso valia para ela também. Aos vinte se achava brilhante, cheia de vida, de fôlego. Hoje, estava toda murcha e fazendo suas refeições com um peixe beta vermelho que era sempre trocado por um mesmo modelo quanto o anterior morria. Fazia isso a uns três anos ou mais. Outro suspiro. "Como as coisas mudam...". Um estalo, talvez a frase merecesse uma pontuação diferente : "Como as coisas mudam? Como as coisas podem mudar tanto assim gente!? Como a gente um belo dia acorda e se vê vestindo roupas cafonas e usando uma vidinha tão demodê, tão medícre? O quê que acontece que faz a gente se tornar assim tão opaca, tão fatigada?". Aqui o pensamento teve que ser cortado pelo berro do vizinho, incorporando o refrão. "É isso". A chuva apertava. Joana foi mudando a expressão: os olhos pausados e os lábios se invertendo num discreto sorriso que não mostra os dentes, só eleva as bochechas. Largou a roupa que ainda segurava em cima da cama, foi até a cozinha pegou o mini aquário do peixinho vermelho com as duas mãos e o encarou com um olhar cheio de certeza e mantendo o mesmo sorriso do quarto. Tomou agora o aquário só com uma das mãos e com a outra abriu a porta. Saiu assim, só de meia, calcinha e Choquito, e esqueceu até de trancar a porta. Com o aquário firme entre as duas mãos, desceu as escadas até o vizinho cantor. Parou em frente ao se apartamento por uns instantes olhando a porta através do aquário de aguás cintilantes posto em frente ao rosto. Via de forma contorcia o número 103. A música era tão alta que não adiantaria nem tocar a campainha. Abaixou e colocou o aquário em cima do tapetinho verde da entrada do apartamento. Sorriu maliciosamente e subiu confortada as escadas de volta para o seu apartamento. Os olhos brilhavam. Pronto, estava feito. Alguém precisava ser feliz.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Era noite. Ela na varanda, escovava os dentes no tanque porque o banheiro estava ocupado. Do vizinho vinha cheiro de pimentão: cachorro-quente. No entanto o apetite era outro. Não sabia se alimentava a vontade de ligar para Bento. Bento... (pausa dramática). E de novo: Bento. Utimamente, sempre Bento. Nunca tiveram nada de concreto, Maria e Bento, mas ela pensava nele antes mesmo do nada entre eles ter acontecido. Desde muito menina quando o via passar. Coisa que era rara inclusive, mas suficiente. Assim como foram suficientes três encontros espassados num tempo de uma semana do primeiro para o segundo e quatro meses do segundo para o terceiro, para que ela se visse completamente desnorteada. E já fazia mais de dois meses desde da última noite. Ele sempre pareceu brincar com ela. Esconde-esconde. Poderia ser pique-pega. Ela preferiria. Mas, o fato era que Maria sentia muita falta dele. Falta de ter conseguido viver tudo aquilo que sua imaginação produzia para os dois. Ela tinha amor, amor por esse Bento. Tinha também o outro Bento, um substituto alcançável para o primeiro. Tinham ridiculamente o mesmo nome. Era como uma dessas peças que a vida gosta de pregar na gente. Puro acaso. Tinha encontrado esse Bento substituto hoje, e pensava em toda essa piada enquanto a espuma da pasta de dentes era cuspida no ralo. Ia embora lentamente cano abaixo com água da torneira que caia com força, quebrando o silêncio do apartamento. Não mais barulhenta que o movimento das idéias na sua cabeça e, não mais forte do que a angústia em seu peito. Essa situação não podia continuar assim, aquilo iria matar Maria. Matá-la em silêncio, no seu silêncio. Corroe-la sem que ninguém notasse e quando percebessem seria tarde, estaria morta. Dura e seca. E veria disperdiçado todo aquele sentimento tão nobre. E isso, pensava ela, não podia acontecer, era injusto demais. A voz precisava sair. Precisava sair aquela noite. A angústia subia pela garganta, envolvia os pulmões, bloqueava o ar. A coluna doía, os olhos pesavam. Maria sentia o corpo todo incomodado. Maria precisava agir. Expelir o movimento, expelir aquele pigarro. Era isso, pensava: "preciso escarrar Bento". Desobstruir a passagem para o ar, a passagem para que outros pensamentos me atinjam, renovar a vida antiga, renovar a vida gasta. Era preciso fazer alguma coisa. E fez. bateu a escova de dentes da beira do tanque, para livrar dela o escesso de água. Guardou a pasta de dentes e a escova. Foi dormir.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Terapia de casal

- Querida desculpe, mas não posso ser outro alé, desse que sinto que sou.
- Ok, meu bem, mas não consigo te ver além desse que experimento. És para mim toda a verdade dos meus sentidos.
- Que fazemos, então?
- Não se preocupe. Enquanto te construo, me remonte também. Assim, em nossas fantasias reais, seremos felizes... mas só enquanto a soubermos reais. Enquanto nos soubermos infinitas possibilidades.