"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho" - Mário Quintana
segunda-feira, 26 de julho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Quando Júlio pediu para voltarmos, disse assim:
-Os nomes para mim não importam, importa mais o lugar em que me põem. Você me pede que te chame de Lito, mas Lito só existe enquanto existe Nãnã e Nãnã hoje, não existe mais. Agora, tem Fernanda, tem Nanda que é como me chama minha mãe, tem Dinha que é como me chamam minhas amigas. Nãnã tem, mas no passado. Tem, quando tinha o que a gente era. Só enquanto pensamos nela, é que ela existe. E isso somente enquanto abstração e não mais em concretude tal que possas abraçá-la para matar a saudade que dela tens. Somos outros agora. Todas as suas palavras, de que anseia por ter contigo aquela menina, te digo que também poderia eu sentir o mesmo por ela, porque ela já não sou eu. Nem é parte de mim enquanto propriedade individual, e há tanto dela em mim quanto em ti. Porque ela era fruto nosso. Ela foi um momento que fui e que ficou lá, junto com o momento. Hoje olhando para ela, a torno diferente. E você também a modifica e não é daquela que sente falta, mas dessa que em mim busca, que em mim cobra correspondência. É por essa que você inventou que choras e não percebe que ela é diferente da outra. Da mesma forma que não percebe que eu não poderia ser nem aquela que você amou, nem essa que aqui está a me pedir. Não dá para voltarmos a ser o que um dia fomos e se me pede isso, sinto não poder fazer nada por ti. Se ao invés disso me pedisse para invertarmos outro algo junto, eu poderia, mas voltar já não posso, não podemos. Aquela menina não está mais vivendo e se acaso tivesse me pedido não para tê-la novamente, mas sim para ir junto comigo construindo isso que agora me vai sendo possível, poderia te dar saciedade. Mas, essa sede que me mostra já não posso dar fim. É que me pede tudo que já não tenho mais e despreza o que poderia conhecer, então, não vejo mais como Nãnã e Lito virarem outra coisa, para além de Fernanda e Júlio, não nesse instante em que só consegue me ver Nãnã e eu te ver Júlio. Em tempo diferentes não dá para se encontrar...
Vi quando ele levou de volta ao bolso uma carta que reconheci como presente meu pelo papel. Já não tinha provas para me dar em prol de uma causa perdida. Tudo aquilo me dóia tanto quanto a ele doía, mas nem disse isso a ele, preferi deixar que ele fosse... Eu entendia o quanto é enorme o sofrimento da saudade de algo que já não há jeito de pôr fim, porque não há como possuir. Não, por impedimento que ainda permita esperaça de um dia acabar, mas pela próprio fato da coisa não haver no mundo.
"O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou"
-Os nomes para mim não importam, importa mais o lugar em que me põem. Você me pede que te chame de Lito, mas Lito só existe enquanto existe Nãnã e Nãnã hoje, não existe mais. Agora, tem Fernanda, tem Nanda que é como me chama minha mãe, tem Dinha que é como me chamam minhas amigas. Nãnã tem, mas no passado. Tem, quando tinha o que a gente era. Só enquanto pensamos nela, é que ela existe. E isso somente enquanto abstração e não mais em concretude tal que possas abraçá-la para matar a saudade que dela tens. Somos outros agora. Todas as suas palavras, de que anseia por ter contigo aquela menina, te digo que também poderia eu sentir o mesmo por ela, porque ela já não sou eu. Nem é parte de mim enquanto propriedade individual, e há tanto dela em mim quanto em ti. Porque ela era fruto nosso. Ela foi um momento que fui e que ficou lá, junto com o momento. Hoje olhando para ela, a torno diferente. E você também a modifica e não é daquela que sente falta, mas dessa que em mim busca, que em mim cobra correspondência. É por essa que você inventou que choras e não percebe que ela é diferente da outra. Da mesma forma que não percebe que eu não poderia ser nem aquela que você amou, nem essa que aqui está a me pedir. Não dá para voltarmos a ser o que um dia fomos e se me pede isso, sinto não poder fazer nada por ti. Se ao invés disso me pedisse para invertarmos outro algo junto, eu poderia, mas voltar já não posso, não podemos. Aquela menina não está mais vivendo e se acaso tivesse me pedido não para tê-la novamente, mas sim para ir junto comigo construindo isso que agora me vai sendo possível, poderia te dar saciedade. Mas, essa sede que me mostra já não posso dar fim. É que me pede tudo que já não tenho mais e despreza o que poderia conhecer, então, não vejo mais como Nãnã e Lito virarem outra coisa, para além de Fernanda e Júlio, não nesse instante em que só consegue me ver Nãnã e eu te ver Júlio. Em tempo diferentes não dá para se encontrar...
Vi quando ele levou de volta ao bolso uma carta que reconheci como presente meu pelo papel. Já não tinha provas para me dar em prol de uma causa perdida. Tudo aquilo me dóia tanto quanto a ele doía, mas nem disse isso a ele, preferi deixar que ele fosse... Eu entendia o quanto é enorme o sofrimento da saudade de algo que já não há jeito de pôr fim, porque não há como possuir. Não, por impedimento que ainda permita esperaça de um dia acabar, mas pela próprio fato da coisa não haver no mundo.
"O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou"
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Sexta- feira Santa
Pode parecer pretensão. E, na verdade é. Joana achava que Vitor tinha ficado muito chato sem ela. Fazia dois anos e dois meses que eles tinham terminado e ela o acompanhava a distância. Hoje em dia, com a internet, podemos espiar quem a gente quizer, todo mundo acabou capturado por alguma artimanha virtual. De vez em quando ela o fuçava. E tudo que ela encontrava era uma versão de outra coisa. É, como se ele houvesse se tornado uma versão de si mesmo e mentisse, mentisse muito sobre quem era. Inventasse histórias e mais histórias de si mesmo e para si mesmo, só para não aparecer, para não se mostrar, se proteger do mundo, das mulheres. Era claro que Vitor não queria atrair mulheres, não com todo aquele papo chato de futebol, política e baboseiras inúteis que ninguém quer saber de fato. Tudo bem que o que todo mundo quer saber, a gente não deve mostar para criar um certo mistério e dispertar o anseio pla descoberta, aguçar a curiosidade. Mas convenhamos que esse papinho furado repelia, não instigava. "Será que ainda me ama?". E empalideceu a essa revelação. "É isso, é obvio, ainda é apaixonado por mim!", foi a resposta que encontrou para toda chatisse do ex-namorado. "Por isso toda essa caricatura, quer afastar a todas porque no fundo me quer! Coitado, e não deve estar com coragem de dizer...". Não depois do grande fim.
Joana ficou algumas noites pensando em como contar a Vitor que ela já sabia e poupá-lo de todo constrangimento de ter de lhe contar a verdade. Decidiu ligar para Vitor para marcar uma saída. Ela sentiu mesmo aquilo como uma obrigação, o pobre estava mesmo precisando de ajuda, precisava mesmo que Joana voltasse a dar a ele alegria de viver. Morar na internet não é vida. Ela ficava imaginando que ele devia passar o fim de semana inteiro dormindo, twittando e vendo filme pornô fazendo exatamente o que estão pensando. Pobre Vitor! Certamente precisava de uma mulher! Todos aqueles textos e discursos estavam precisando de um pouco de cor de rosa, todos fedendo a casa suja e com aspecto de barba por fazer. E não precisava de uma mulher qualquer, senão já teria conseguido, era dela que ele precisava, de Joana, era porque sentia falta dela e somente dela. Encontar Vitor era mais do que um favor pelos anos felizes que tiveram, era sua missão. Questão mesmo de acertar as contas com Deus.
Respirou fundo como se recebesse a benção e ligou. Vitor pareceu surpreso, mas aceitou encontrá-la, achou que a coitada estava precisando tirar o atraso. Marcaram para sexta. Ela encheu a alma com a satisfação dos justos, dos bons de coração, dos piedosos. Faria o que fosse possível em nome da caridade. Era muito prestativa a Joana, jamais deixaria alguém assim, na mão.
Joana ficou algumas noites pensando em como contar a Vitor que ela já sabia e poupá-lo de todo constrangimento de ter de lhe contar a verdade. Decidiu ligar para Vitor para marcar uma saída. Ela sentiu mesmo aquilo como uma obrigação, o pobre estava mesmo precisando de ajuda, precisava mesmo que Joana voltasse a dar a ele alegria de viver. Morar na internet não é vida. Ela ficava imaginando que ele devia passar o fim de semana inteiro dormindo, twittando e vendo filme pornô fazendo exatamente o que estão pensando. Pobre Vitor! Certamente precisava de uma mulher! Todos aqueles textos e discursos estavam precisando de um pouco de cor de rosa, todos fedendo a casa suja e com aspecto de barba por fazer. E não precisava de uma mulher qualquer, senão já teria conseguido, era dela que ele precisava, de Joana, era porque sentia falta dela e somente dela. Encontar Vitor era mais do que um favor pelos anos felizes que tiveram, era sua missão. Questão mesmo de acertar as contas com Deus.
Respirou fundo como se recebesse a benção e ligou. Vitor pareceu surpreso, mas aceitou encontrá-la, achou que a coitada estava precisando tirar o atraso. Marcaram para sexta. Ela encheu a alma com a satisfação dos justos, dos bons de coração, dos piedosos. Faria o que fosse possível em nome da caridade. Era muito prestativa a Joana, jamais deixaria alguém assim, na mão.
sábado, 3 de abril de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
E se eu te disser que o que eu faço não tem nome, só tem cor, só tem brilho, só tem tom.
E se eu te disser que sou inominável, escapo de onde me emolduram, escorro de onde me colocam.
E seu eu te disser que sou agora, depois não sei e amanhã serei mais.
Terás que me revirar dos pés a cabeça a todo momento, e por todos os dias (até o fim de minha ou de sua vida),, para me conhecer, saber minhas causas, saber o que causa, o que me passa. Terá que ter fôlego para experimentar o que me torno a cada instante. É trabalho incessante, sem fim. Por outro lado, assim te oferecerei toda gaça de quem está está sempre descobrindo, sempre deslumbrado ou assustado ou sejá lá como te deixe. Infinitas possibilidades, menos o tédio de uma verdade suprema: és tudo o que posso te ofertar.
E se eu te disser que sou inominável, escapo de onde me emolduram, escorro de onde me colocam.
E seu eu te disser que sou agora, depois não sei e amanhã serei mais.
Terás que me revirar dos pés a cabeça a todo momento, e por todos os dias (até o fim de minha ou de sua vida),, para me conhecer, saber minhas causas, saber o que causa, o que me passa. Terá que ter fôlego para experimentar o que me torno a cada instante. É trabalho incessante, sem fim. Por outro lado, assim te oferecerei toda gaça de quem está está sempre descobrindo, sempre deslumbrado ou assustado ou sejá lá como te deixe. Infinitas possibilidades, menos o tédio de uma verdade suprema: és tudo o que posso te ofertar.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Raiva. Muita raiva. Era tudo que Ana Maria conseguia sentir nesse momento. Nada menos cabível. A vida tinha andado, finalmente. Desde os 15 anos estava emocionalmente envolvida com um mesmo rapaz. Mesmo que ele nunca venha a saber disso. Uma amor de menina, puro, simples, bobo: risível. Aff! Foram penosos três anos de amor calado, num silêncio que seria de túmulo, como dizem, mas a expressão aqui não ficaria boa, pois o amor não morreu. E amor enquanto não morre, aumenta. E assim foi. Ana Maria nutria esse sentimento com colheradas fartas de fantasias, de vontades, sonhos banais como comer brigadeiro embaixo do cobertor num domingo de chuva e frio. Suspirava imaginando a presença diária de Ricardo, seu sorriso perfeito. Imaginava com ele o acordar, o fim do dia. Ficava remontando com ele cenas de cinema e comercial de margarina. Os atores: ela, ele e três filhos homens loiros como o pai. Chegava mesmo a encenar certas fantasias e por vezes se pegava falando com ele, sozinha. Era como se ele realmente estivesse com ela as vezes. Ela sentia a presença dele de uma maneira triste de quem sabe que está se enganando. Enfim, assim foi por três longos anos de encontros ao acaso. E agora, sem mais nem menos, ela tinha enfim, se apaixonado por outro. E como assim se apaixonado por outro? Depois de tantos e tantos dias sofridos, sonhando, desejando, planejando... e tudo teria de ficar assim, perdido, largado, irrealisado, abandonado como uma caixa de sapato que ninguém guarda sapatos e então, não serve para mais nada. Quanta imaginação disperdiçada, quantos suspiros em vão. Que maldição, que peça o destino tinha lhe pregado. Ora quem diria, apaixonada por outro. Apaixonada por Getúlio. Homem sem graça, homem miúdo, homem pálido sem expressão, sem menor jeito de homem, homem que faça filhos (que dirá filhos homems). Entretanto, Getúlio era dono das fantasias sexuais mais cabulosas que Ana Maria poderia pensar. Não, não podia ser, isso não podia estar acontecendo com ela. Era muita injustiça para ser verdade. Isso devia ser coisa dos hormônios, muito tempo se guardando para um homem só dá nisso, a pessoa endoidece. Que fazer agora? Sonhar tudo denovo? Porque ela não iria dar a Getúlio os sonhos mais lindos de sua vida, os sonhos que não eram dele, não eram para ele. Era a vida com Ricardo. Era a vida feliz com Ricardo. Isso não combinava com Getúlio. Com ele a coisa era outra, era pele, era beijo, era amasso. Logo com aquele homem, que para morto, bastava perder a vida. Cruzes. Muita raiva, muita raiva. Ana Maria bufava de raiva. Agora, tinha dois amores, amava dois homens. E como pode ser isso, como pode querer a dois para ter do lado. Na verdade Ricardo era pra ter do lado, Getúlio era para ter emcima. Será que ela estaria condenada a sujeira de ter um amante para o resto da vida? Será que mesmo que se casasse com Ricardo, não haveria de tirar da mente os sonhos impuros com Getúlio? E teria de o procurar nas tardes em que o marido estivesse trabalhando e tivesse que arriscar todo seu casamento de margarina por insaciáveis aventuras carnais? Céus, esses pensamentos só a deixavam querendo mais. Os dois. E por fim se enchia de raiva e mais raiva. Como ela podia ter deixado isso acontecer, como ela tinha se deixado levar pelos encantos moribundos do outro. Será que nos dias de hoje não se pode confiar nem em si mesmo? Sua vida era tão feliz e amável enquanto tinha sido fiel a um homem só. E se a solução fosse acabar com Getúlio? O outro é que ela não ia querer ver num caixão. Será que depois que a morte levasse Getúlio de todo, ele ainda atormentaria seus pensamentos e ela acordaria no meio da noite suando frio, gelada pelo desejo nunca realisado? Uma desgraça, era isso que sua vida era agora, arrastada ao amor por dois homens, dois homens! Deus jamais a perdoaria por tanta gula.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Marta não falava a verdade porque era boazinha. Nem por apreço a moral e aos bons costumes. É só porque falar a verdade dava menos trabalho. Mentir requer muita criatividade e disso, ela tinha pouco. Inventar histórias nunca foi seu forte. Não que fosse de todo incapacitada para inventar, mas era tão mais fácil dizer tudo como tinha sido. Sem falar que evitaria problemas futuros. Ela nunca seria pega, não tinha trapaceado. Por outro lado, uma mentirinha ou outra poderia ter lhe salvado centenas de vezes e evitado muitos problemas futuros. Nem sempre a verdade é bemvinda. Nem sempre a realidade dos fatos faz bem. Marta considerava isso um efeito colateral, quanto a ele não havia o que fazer, eram as consequências irremediáveis. Já os frutos da mentira, eram todos crias dela (de Marta e sua invenção). Marta sabia que falando a verdade ou a mentira, haveriam mal intendidos, corria-se riscos. Uma verdade pode trazer tanta destruição quanto a falta dela. Então, melhor falar tudo tim-rim-por-tim; além de menos trabalhoso, ainda se sai bem falado. Se algo desse errado porque Marta omitiu e inventou detalhes ou todo o tudo, a culpa seria, logicamente, dela. Ela teria que carregar esse peso para toda a vida. Já se, tudo desandasse por causa do que realmente aconteceu, a culpa não era dela, era do acontecido, das circunstâncias, do acaso (para os descrentes) ou do destino (para os que tem fé). E ela poderia sofrer, mas não poderia ser menos julgada do que qualquer um dos demais envolvidos nas circunstâncias. O que era, definitivamente um consolo, um alívio. Quem pode contra a própria consciência? É por isso que Marta achava que é preciso muito peito para mentir. Ao contrário do que a maioria pensa, Marta achava que é preciso muita coragem para dizer uma mentira e correr o risco de ser atormentado por ela até o leito de morte. Por isso, ela se colocava na ala dos covardes, dos mais racionais e menos inventivos. E assim, Marta não podia deixar de sentir remorso e de se criticar por ser tão apática. E, no fim das contas, apesar de tudo, acabou muitas vezes se sentindo culpada. Culpada sim, por não ter mentido, por não ter tido a virtude da mentira que teria sido tão mais confortável, tão mais certa. Quantas coisas Marta tinha destruído e visto cair por causa de sua sinceridade. Quanta dor ela sentia escondida, buscando sempre sua lógica de pensamento para lhe dar um alento, para aliviar a culpa. Por mais que a lógica lhe dissesse que ela estava certa em cumprir com a verdade, ela se sentia medíocre. Quanta coisa uma mentira pode evitar. Porque jogar tudo por terra, se uma mentira mantém toda ordem? Porque não aceitar a mentira se a realidade é tão maléfica? Se tantas verdades são temporárias, qual a diferença? Amanhã poderão ser mentiras; e as coisas mais inacreditáveis, outrora, não poderão virar as mais certas... Qual seria pior, o que seria mais digno de covardia ou heroísmo? Quem pode julgar? A consciência é juíz justo? A consciência é juíz justo. Até que se prove o contrário.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
E ninguém liga se no meio da noite eles trocam de perfume e ela vai embora com o cheiro dele e ele vai embora com o cheiro dela. A brincadeira de vice-versa é das mais gostosas. É como se levássemos um pedacinho alheio para casa. E quem pode dizer o contrário? O cheiro é das coisas mais fiéis que alguém pode ter, mais intrínsecas, mais pessoais, mais características. É sim, uma parte do outro (e tal como outra qualquer, volátil). E o olfato é o órgào mais atento, mais sensível as lembranças. Cheiro disperta. Cheiro não se confunde. Por mais que seja a originalidade vinda de um vidro comercial, essa logo se dissolve, se perde. No fim, no fim da noite, o que fica é sempre o cheiro honesto, o cheiro de verdade, da verdade. O cheiro enganador fica pelos lençois. Na pele, fica mesmo é o cheiro da carne, o cheiro do corpo, o doce cheiro das travessuras a dois. E é esse cheiro que levamos do outro quando nos despedimos. É esse cheiro que sentimos pena de perder ao tomar banho. Mas não entenda isso como um roubo. A maravilha dos odores é exatamente a perpetuação, sua capacidade de multiplicar-se. O cheiro próprio se doa, mas sem nunca se perder. É o milagre compartilhado.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Desde quando ele se foi, Catarina não trocou mais o lençol da cama de casal. Completariam 4 meses na próxima semana. Resolveu cultuar as escamas mortas da pele dele (pele rosada, pele frágil). Preferia assim. Lençóis alvos não tem história. Assim como a moça fiel que se casa nova abdica de ter dentro de si outros tantos. Adbica para ser cândica, lívida. Abdica porque acha que assim que deve ser, porque se sente completa com o que tem, porque não precisa de mais. Digamos que os que se contentam com pouco são os que não se perderam conhecendo todo o resto. E isso ela já era. O papel da lividez era dela e a ela bastava. Não tinha espaço na cama para mais disso. Não era com isso que ela queria dormir todas as noites. Seu companheiro deveria ser diferente.
Ao contrário dos que amam as páginas em branco porque sempre poderão enchergar nela mil possibilidades, ela preferia conviver com as escolhas. Não gostava do jogo de não ter nada para poder ter tudo. Apesar disso, sempre desejou a presença dos que contemplam e tem medo de serem presos pelas artimanhas das opções que fazem. Dos que acham que mais pesa o que perdem, do que o que ganham, quando optam. Traiçoeiro livre arbítrio.
Ela gostava das marcas, era uma mulher de escolhas, das que seguem caminhos, mesmo sabendo que assim acaba perdendo outras trilhas. A curiosidade nunca foi seu forte. Era mulher de ganância pequena, nunca desejou o mundo todo para si. Só queria parte dele. Uma pequena parte era suficiente. E justo a parte que mais desejou, tinha ido embora a 4 meses. Mas, quem podia culpar o mundo por isso, por ter pego de volta parte que lhe cabia? Quem poderia culpar a ela por ter se metido pelos caminhos que se meteu? Caminhos que a levaram aonde estava. E quem poderia ainda, culpar a própria parte escolhida por ter reivindicado seu direito de ir e vir? Ninguém tinha culpa. Culpa não era a questão. A questão era a história. Culpa não pertencia a ninguém, mas a história sim. A história era de muitos, inclusive do lençol. Não seriam as mão de Catarina que iriam arrancar daquele lençol, as histórias que tinham. Não era justo, não seria justo. Definitivamente ela não tinha esse direito. E por isso e por tantos outros mais, ela não o fez. Obviamente ninguém sabia disso. Do lençol. Todos achavam que ela estava reagindo bem ao término do casamento. E estava, realmente estava. Mas se ela contasse a alguém sobre o lençol, iriam criar problemas, tornar o que estava tudo bem em problema. E ninguém gosta de problemas. Melhor que fique tudo assim como está. Em time que está ganhando não se mexe. E ninguém mais tocava no assunto do casamento, não tinha porquê trazê-lo denovo para mais discussões. Só o lençol ainda lembrava do casamento. E de tudo mais.
Ao contrário dos que amam as páginas em branco porque sempre poderão enchergar nela mil possibilidades, ela preferia conviver com as escolhas. Não gostava do jogo de não ter nada para poder ter tudo. Apesar disso, sempre desejou a presença dos que contemplam e tem medo de serem presos pelas artimanhas das opções que fazem. Dos que acham que mais pesa o que perdem, do que o que ganham, quando optam. Traiçoeiro livre arbítrio.
Ela gostava das marcas, era uma mulher de escolhas, das que seguem caminhos, mesmo sabendo que assim acaba perdendo outras trilhas. A curiosidade nunca foi seu forte. Era mulher de ganância pequena, nunca desejou o mundo todo para si. Só queria parte dele. Uma pequena parte era suficiente. E justo a parte que mais desejou, tinha ido embora a 4 meses. Mas, quem podia culpar o mundo por isso, por ter pego de volta parte que lhe cabia? Quem poderia culpar a ela por ter se metido pelos caminhos que se meteu? Caminhos que a levaram aonde estava. E quem poderia ainda, culpar a própria parte escolhida por ter reivindicado seu direito de ir e vir? Ninguém tinha culpa. Culpa não era a questão. A questão era a história. Culpa não pertencia a ninguém, mas a história sim. A história era de muitos, inclusive do lençol. Não seriam as mão de Catarina que iriam arrancar daquele lençol, as histórias que tinham. Não era justo, não seria justo. Definitivamente ela não tinha esse direito. E por isso e por tantos outros mais, ela não o fez. Obviamente ninguém sabia disso. Do lençol. Todos achavam que ela estava reagindo bem ao término do casamento. E estava, realmente estava. Mas se ela contasse a alguém sobre o lençol, iriam criar problemas, tornar o que estava tudo bem em problema. E ninguém gosta de problemas. Melhor que fique tudo assim como está. Em time que está ganhando não se mexe. E ninguém mais tocava no assunto do casamento, não tinha porquê trazê-lo denovo para mais discussões. Só o lençol ainda lembrava do casamento. E de tudo mais.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
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